quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Letras que fantasiam mais

Certa vez alguém me disse que o Steven Spielberg, numa das vezes em que foi receber uma premiação por um filme no qual ele trabalhara (filme este que teve seu roteiro baseado num livro), o afamado diretor norte-americano, naquele tradicional discurso de recebimento do prêmio, pediu uma espécie de desculpa por ter – a partir do momento em que decidiu dar som e imagem àquela obra, que antes se resumia a letras – podado a nossa imaginação, lamentou por ter cortado as asas de nossa criatividade. Isso porque, segundo ele, a nossa capacidade de fantasiar, de imaginar é sempre mais vasta quando mergulhamos dentro do livro, ao invés de simplesmente nos contentarmos com a visão que uma outra pessoa, no caso o diretor do longa, teve ao ler a obra.

Pra falar a verdade, nem sei se o homem por trás de filmes como E.T., Tubarão e tantos outros clássicos do cinema disse mesmo isso, mas, caso o tenha feito, assino embaixo. Não estou com isso desmerecendo a sétima arte, que fique claro, e tenho certeza de que tampouco foi esse o intuito de Spielberg com o tal discurso. O que pensamos, o tal diretor e eu, acerca disso é simplesmente que, em se tratando de filmes cujos roteiros são adaptações de livros, as obras escritas estarão sempre um passo à frente das películas, ao menos no que diz respeito à capacidade de darmos asas à nossa imaginação, de estendermos o horizonte de nossa fantasia.

Quando vemos um filme com roteiro adaptado, nos colocamos, como dito no fim do primeiro parágrafo, diante da visão que o diretor teve enquanto lia aquela obra, isto é, nos pomos diante da visão dele, que talvez, por melhor que seja, fosse diferente da nossa, caso tivéssemos adentrado as páginas que originaram a película.

Mas só contei tudo isso porque domingo passado assisti ao longa Os homens que não amavam as mulheres, adaptação do romance homônimo escrito pelo sueco Stieg Larsson. Pra quem, como eu, gosta de ficção policial, daquelas que você começa a ler e não consegue mais parar, deixo a dica: o livro – ou melhor, os três livros, pois se trata de uma trilogia cujo primeiro volume é exatamente esse – é excelente, irreparável dentro de seu gênero.

Ah, o filme? Eu diria que é bom, muito bom, mas seria melhor se não tivesse pecado num único ponto: ter dado som e imagem a letras, que são mais fantasiosas quando somente lidas.


Frase do dia:
"O bem é uma boca, o mal é outra boca. Da saliva desse beijo sai a nossa alma."
Música de Dado Villa-Lobos, Gustavo Dreher e Fausto Fawcett.

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