segunda-feira, 19 de março de 2012

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É triste, mas estou sem tempo para os devaneios do blog. Não sumirei de vez, mas os escritos serão mais raros.

Vou-me embora pra infância

Faz algumas semanas, era um sábado de manhã, e a escola em que eu estudei até meus dez anos, na qual desde então não voltara a pisar, estava literalmente de portas abertas – aliás, alguma vez elas me estiveram cerradas?

Ninguém na portaria, ninguém na recepção, de modo que fui entrando acanhado naquele ambiente que um dia foi tão meu. Havia ido lá só pra buscar minha tia, com quem combinara de ir ao cinema e que estava lá dando uma palestra para os professores da escola. Imaginando que ela ainda não se desocupara, decidi descer do carro e dar uma olhada em como estavam aqueles velhos corredores: cenários em que meus mais puros sonhos plantei.

A escola estava mesmo vazia, e a cada passo que dava colégio adentro, mais estranho me sentia: foi como rever – em cada pequeno espaço que felizmente foi mantido naquela escola – um pedaço de mim que ficou pra sempre guardado naquelas salas, naquele mundo colorido que nada tem a ver com a realidade em preto e branco que mais tarde se nos apresenta. À medida que entrava naquele universo que cheirava a lúdico, fui me reencontrando com uma parte de mim que pensava não existir mais. Ou melhor, com uma parte minha que eu sabia que ainda (r)existia, sim, afinal ela é o alicerce daquilo que me tornei, mas que jamais imaginei que pudesse me surgir novamente em cores tão vivas, em sensações tão reais. Senti-me regurgitando memórias afetivas perfeitas, como se as tivesse engolido sem mastigar e, quase quinze anos depois, eu as visse com a mesma riqueza de cores, de sabores, de sonhos. 

Fui então lembrando cada um dos amigos que tive ali: de uns dois ou três ainda sou muito próximo, de alguns tenho esporádicas notícias pelo Facebook, mas da grande maioria guardo somente a carinhosa lembrança de um tempo em que convivíamos com monstros e fadas e princesas, um tempo em que perguntávamos sobre tudo porque não tínhamos vergonha de não saber nada, um tempo em que chorávamos um choro alto, só pra mãe poder notar. Guardo desses amigos somente essa lembrança inocente, mas ao caminhar por aqueles corredores, naquele sábado de manhã de escola vazia, sei que estivemos todos juntos uma vez mais, pois foi assim que os senti: perto de mim.

Sentei-me num banco do pátio e tentei lembrar tudo, tudo daquele tempo, como uma pessoa que em sonho reencontra alguém muito querido que já partiu e assim aproveita cada segundo ao seu lado, pois no fundo sabe que aquele encontro é breve, e que logo o sonho acabará e essa pessoa voltará a ser somente uma lembrança, perdida em meio à realidade. E, assim, me esforcei pra manter – durante aqueles minutos em que estive só, diante de ambientes tão cheios de significado – viva a memória daquele tempo infantil, talvez já sabendo que em breve ela arrefeceria novamente. Olhei a quadra de futebol, passeei por corredores, por salas, pelo refeitório e tudo me pareceu tão bom, mas tão bom, que me doeu o peito de repente – era a viagem que acabara, era a realidade que já me chamava de volta, triste e sem graça. 


Frase do dia:
"É preciso ter dúvidas. Só os estúpidos têm uma confiança absoluta em si mesmos."
Orson Welles

sexta-feira, 2 de março de 2012

Adeus, e deve ter ido brincar

Ela chegou aqui em casa ontem, e me bastou ler o nome do destinatário, escrito em letras tortuosas, garranchudas, típicas de quem está ainda tomando o jeito de pegar num lápis – pra adivinhar quem era o remetente daquela carta. Sim, uma carta, mais uma dessas coisas que o nosso mundo acabou por engolir sem nos perguntar se dispensávamos mesmo sua existência. 

Mas a missiva era de fato de quem eu imaginara: foi só olhar o outro lado do envelope e lá estava infantilmente grafado o nome completo do meu sobrinho Vinícius, que não mora por aqui e lamentavelmente só pode nos visitar uma vez ao ano. O destinatário, no entanto, não era eu, mas minha mãe, de modo que preferi manter o envelope lacrado e esperar que ela o abrisse quando chegasse do trabalho.

Mesmo com o envelope fechado, porém, num desses momentos em que percebemos estar um pouco mais sensíveis, mas em que, talvez por estarmos sozinhos, podemos nos deixar guiar por essa passageira embora acentuada sensibilidade – senti meus olhos marejando, feito nuvem besta que passa no céu. Bastou-me enxergar aquelas letras cuidadosas, aquela grafia vacilante que alguns diriam feia, aqueles vocábulos caprichosamente travosos – e meus olhos se encheram de lágrimas. Por quê? Talvez pela saudade do moleque, a qual, dentre todas as outras vezes em que ele esteve conosco, nunca havia me batido tão forte quanto em sua última passagem por aqui, há coisa de um mês; talvez por ter me reconhecido naquelas letras carrancudas que um dia também escrevi (embora ainda hoje minha grafia não seja lá muito apreciável), e com isso de repente ter sido jogado de volta àquele fantasioso mundo infantil que acabamos por sacrificar à medida que vamos crescendo; o certo é que fiquei alguns segundos por ali, absorto, com a carta na mão, a divagar, feliz, em paz.

Quando minha mãe chegou e abriu o envelope, logo pude ver o conteúdo da missiva: numa folha de caderno, quatro cordiais linhas escritas e c'est fini. O rapaz detém mesmo o poder da concisão, não se pode negar. Na parte da saudação, ao final, nada de abraços, beijos ou afins. Deixou simplesmente um "Adeus". E deve ter corrido pra brincar.


Frase do dia: 
"Cansei do esforço de parecer inteligente."
José Saramago