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Mostrando postagens de Abril, 2012

O que dista da arte para o artista

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Outro dia li algo a respeito, e concordei sem titubear: há uma diferença, por vezes grande, entre a arte e o artista, entre o mundo gentil que o escritor eventualmente recria quando diante de uma página em branco, e o gesto egoísta do qual – na posição de cidadão comum, de homem (ci)vil – ele às vezes não consegue escapar.
Porque a meu ver são entidades distintas a do Vinicius de Moraes que escreveu o Soneto de separação e a que talvez todas as manhãs saísse pra comprar pão perto de sua casa. Este exemplo não é dos melhores, pois penso que o Vinicius talvez tenha sido um escritor nosso dos que mais aproximou sua vida de sua arte, no sentido de que tanto sua biografia de homem civil quanto sua trajetória literária foram vividas intensa e apaixonadamente. Noutros termos: o Poetinha não cabe tão bem como exemplo do paradoxo(?) em que caem tantos homens quando confrontados com suas artes por uma razão simples: porque ele teve o mérito, diria até a felicidade, de ter conseguido aproximar s…

O prazer que (por ora?) desfaleceu

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Que faz um ator que perde o encanto de estar no palco, que sentido há num músico que já não se sente tocado pelos sons, que sustenta um atleta a quem não mais atrai competir? Ou ainda: que faz um cronista que se desencantou com o colorido da vida?
Esmorece, míngua. Aos poucos.
Vai perdendo a vontade de sorrir, até que já não sorri mais, mesmo quando julga que deveria; vê-se amargando por dentro, lentamente, feito serpente a envolver um rato indefeso e branco; sente-se afastando do mundo como se este não lhe dissesse respeito, ou como se a insignificante parte que lhe coubesse – escrever – não mais lhe atraísse. Ah, pobre cronista que padece desse mal...!
Escurece-lhe vista, obstrui-se-lhe o peito, seca-lhe a vida: o mundo, até outro dia fervilhante e esperançoso, torna-se gélido, cortante. Vale a pena continuar escrevendo? Acaso sim, escrever sobre o quê: um mundo colorido que não lhe chega mais aos olhos, portanto insistir numa escrita que não lhe soa mais verdadeira, íntima? Ou não fa…