sábado, 21 de abril de 2012

O que dista da arte para o artista


Outro dia li algo a respeito, e concordei sem titubear: há uma diferença, por vezes grande, entre a arte e o artista, entre o mundo gentil que o escritor eventualmente recria quando diante de uma página em branco, e o gesto egoísta do qual – na posição de cidadão comum, de homem (ci)vil – ele às vezes não consegue escapar.

Porque a meu ver são entidades distintas a do Vinicius de Moraes que escreveu o Soneto de separação e a que talvez todas as manhãs saísse pra comprar pão perto de sua casa. Este exemplo não é dos melhores, pois penso que o Vinicius talvez tenha sido um escritor nosso dos que mais aproximou sua vida de sua arte, no sentido de que tanto sua biografia de homem civil quanto sua trajetória literária foram vividas intensa e apaixonadamente. Noutros termos: o Poetinha não cabe tão bem como exemplo do paradoxo(?) em que caem tantos homens quando confrontados com suas artes por uma razão simples: porque ele teve o mérito, diria até a felicidade, de ter conseguido aproximar sua vida de sua obra. Conseguiu reduzir a distância entre o que ele escrevia e o que vivia de fato, de modo que, se uma pessoa somente ler a obra do Vinicius, sem ter sequer noção de quem ele foi enquanto cidadão comum, é muito provável que forme dele uma imagem muito próxima daquilo que ele foi efetivamente: um homem apaixonado, dado, extremo, humano.

Contudo, acontece muitas vezes de o escritor não conseguir alcançar em vida tudo o que ele cria, ou sugere, ou exprime no campo da arte. E creio que a expressão mais apropriada seja esta mesmo: conseguir alcançar. Como alguém que se estica todo tentando pegar uma fruta que está num galho visível porém muito no alto da árvore. Mas penso que para o escritor não é contraditório redigir algo no qual se possa entrever uma determinada ideia, a qual, no entanto, ele aqui acolá não consegue realizar em sua vida cotidiana, real. E sabe por que não há contradição? Porque o escritor também é gente, e, como tal, tem seus fantasmas, suas falhas, seus lapsos de desentendimento com o mundo. Pensar que um escritor consegue sempre levar uma vida tão poética quanto a sua escrita é como conceber um médico que nunca precise se consultar com um companheiro de profissão, ou como imaginar um psicólogo que jamais necessite de frequentar uma análise. 

O que quero dizer, enfim, é que a arte sempre estará um passo (ou dois, ou vários) à frente do homem mero, mortal que a produziu. Daí a crônica do sempre genial Rubem Braga, Visita de uma senhora do bairro, em que uma mulher desconhecida entra na casa do cronista e num determinado momento, a meu ver, se desaponta levemente com a figura um tanto convencional do velho Braga, figura distante da imagem que ela criara quando lia suas crônicas. Num certo momento, ela diz: "Engraçado, escrevendo não dá idéia [de quem você é]. Tem umas coisas tão românticas..."

De minha parte, admito que meus escritos, embora muito longe de terem a qualidade que eu gostaria de lhes imprimir, guardam uma distância pra lá de grande quando comparados ao homem civil de gestos brandos e muitas vezes inseguros, jeito tímido e desinteressante e cuja fala normalmente vacila quando diante de uma mulher bonita. Se aqui eventualmente consigo exprimir o que quero dizer, no mundo lá de fora o mais comum é que as palavras me faltem, ou eu as escolha numa ordem complicada, de modo que acabo me assustando e quase nunca dizendo tudo o que gostaria. Assim, me quedo às vezes confuso, invadido pela sensação de que a escrita – onde sempre intento despejar meu eu mais puro – me consola, mas também me policia: afinal, nunca represento em vida tudo o que escrevo. Humano que sou.


Frase do dia:
"O que o autor vai narrando nos seus livros é, tão-somente, a sua história pessoal. Não o relato da sua vida, não a sua biografia, quantas vezes anódina, quantas vezes desinteressante, mas uma outra, a secreta, a profunda, a labiríntica, aquela que com seu próprio nome dificilmente ousaria ou saberia contar."
José Saramago

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