sexta-feira, 4 de maio de 2012

Ela se foi

Eis um pecado da natureza: fazer que os cachorros vivam menos que os homens. Ou melhor, até: fazer que os bichos de estimação quase todos tenham vida tão curta a ponto de normalmente partirem antes que seus donos.

Vejamos se não há aqui uma incoerência: vemos um ser nascer, damos-lhe um nome, colocamo-la nos braços, educamo-la de modo que ela aprenda a fazer silêncio quando necessário e a tratar sempre bem as visitas que lhe afagam a cabeça – e, quando completa 15 aninhos de vida (uma criança, um futuro inteiro pela frente...), taxamo-la de velha e nos preparamos conformados para sua morte que se avizinha.

A natureza, esta mesma que dizem justa e defensora do equilíbrio, regeu sem preocupação dois destinos e fez uma mãe enterrar uma filha – não há nada de errado nisso?

Não, não era tua hora ainda, Tequila, querida nossa. Tu já eras peça importante, que em nada destoava (antes consonantava...) dentro do sítio Jucurutu. Há quem diga, eu inclusive, que já estavas a sofrer e merecias mesmo este descanso, é certo que sim. Mas o ponto essencial, argumento principal deste texto é que não merecias morte nem sofrimento, mas uma vida longa, muito longa: tu nos veria partir um a um e ainda por aqui permaneceria, altiva, dona de si, mas sempre no sítio. Quantos anos merecias? Tantos quantos viveu a mística Úrsula cunhada por García Márquez, salvo engano a única personagem que atravessa gerações e gerações dentro do mágico Cem anos de solidão. Tu eras, não fosse esse crime por que os deuses ainda hão de pagar, a nossa Úrsula, de modo que nós devíamos passar por tua vida, e não tu teres passado pela nossa. Seria assim mais coerente.

Afinal, se estamos a idealizar um romance cujo espaço é o pacato Jucurutu, reconheçamos: lá, somos todos figuras secundárias, entramos em cena vez ou outra; mas tu, não: tu eras uma das personagens principais, o autor não poderia ter te subtraído tão cedo da trama, não, não poderia.

Porém, como não fomos nós os escritores de tua história, partiste cedo, sem dizer adeus nem até logo, mas seguro que de coração apertado, triste como o dos que ficaram.


Frase do dia:
"[...] já se sabe que as palavras proferidas pelo coração não têm língua que as articule, retém-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se podem ler."
José Saramago

2 comentários:

  1. Valdisio Queiroz24 de maio de 2012 16:15

    Quantas páginas tem um livro?
    A quantidade certa para para expor todo o seu conteúdo,sua mensagem.
    Assim imagino a vida.Tem o seu tempo.O necessário para a sua contribuição,o que nos torna únicos(humanos ou não),inigualáveis.

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  2. Lucas, invado teu post. Unicamente para dizer que li o que escreveste para mim lá no meu, em relação ao texto do concurso, e comentar também que minha resposta já está lá.
    Aprecio muito tua atenção... E espero que não te encontres mais tão triste por ela (a personagem principal dessa postagem tão linda aqui) ter ido embora...
    Um beijo.

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