quinta-feira, 31 de maio de 2012

Sutil, em benefício dela

Poucas vezes em minha ainda curta vida vi um ato tão amoroso. Sutil, discreto, para muitos uma banalidade que pouco ou nada significou, mas a mim pouco importa: eu gosto das banalidades, o essencial da vida reside mesmo é lá – no banal, no sutil.

Imagine: sua mãe vive os últimos dias de vida, não há mais como lutar contra uma doença mesquinha que, hora a hora, dia a dia, suga dela um tantinho mais de sua força. Não, ela não está num leito de hospital: a família, num ato louvável de humanidade e ciente de que não havia mais o que fazer, poupou-a das paredes brancas  e dos olhares cientificamente indiferentes de médicos especializados. Assim, ela estava em sua cama e certamente feliz com isso, porque, quando não há mais remédio que nos chegue, é a ela que recorremos como último medicamento, ou talvez, repensando a sentença, talvez ela seja o primeiro, e não derradeiro, remédio que sempre buscamos.

Vendo assim que sua mãe está morrendo (veja que eu não disse vendo que sua mãe vai morrer, ou que sua mãe morrerá, mas sim está morrendo, no gerúndio), que você faria, além, claro, de se entristecer profundamente e de dar a ela as atenções básicas para mantê-la viva?

Pois essas duas filhas – pelo que sei foram duas, mas não sei ao certo – levaram para o quarto um pequeno aparelho de som em que colocaram pra tocar a música preferida de sua mãe, aliás uma canção linda da Elis Regina, ou que ao menos em sua voz foi que ficou mais famosa: Fascinação. E repetiram algumas vezes a faixa, como certamente teria pedido minha avó, dona Francinise, caso ainda tivesse forças pra falar. Penso que ela ainda compreendeu o que se passou naquele momento, quero acreditar que sim. Ela gostava muito dessa música.

Admirei profundamente o ato: no momento da mais latente dor, lembrar que uma música também pode aliviar um pouco o sofrimento, acariciar o espírito. Não o seu, mas prioritariamente o do outro.

Pensei em dizer o nome das duas filhas (minhas tias) que tomaram tal atitude, mas... não sei, tenho pra mim que esse tipo de gente não gosta de levar os louros por uma boa ação. No domingo passado, elas não puseram aquela música pra que alguém dissesse seus nomes depois. Deixaremo-las, portanto, assim: discretas como o gesto que tiveram – mas reconheçamos: elas mereciam, só por isso, até um certo bolo de banana.

Uma pena, já não há quem o faça.

(À lembrança da vovó Francinise)


Frase do dia:
"Tudo que começa a viver já começa também a morrer, a caminhar para a morte, de maneira que morte é também vida."
Heidegger

2 comentários:

  1. Valdisio Queiroz4 de junho de 2012 19:14

    Já não mais está entre nós quem tão bem fazia o bolo de banana.Mas cabe aqui uma historinha que trata de virtudes distribuidas por ela.
    No domingo,casa cheia de filhos e netos.Num momento de ninguem no quarto,um neto que ficou ali por acaso,pergunta:
    _Vó,a senhora tá precisando de alguma coisa?
    _Não,tudo que preciso tá aqui...

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  2. A morte também é vida... Para bem morrer, bem viver... Sim maluquete, essa é a maior lição. Indecifrável, incompreensível, mas redentora de todos os males. Amém!

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