segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Um lápis

Foi numa dessas tardes amenas, céu azul aberto quase sem nuvens, sol brando que em nada incomodava, antes suavizava – era um dia assim, como outro qualquer.

Um dia tão bobo, que me dei conta de que precisava comprar um lápis, se é que ainda há lápis neste mundo moderno repleto de notebooks, iphones, ipads e outras parafernálias que felizmente desconheço: um mundo que já não nos permite ver a letra do outro, um mundo para o qual temos todos a mesma caligrafia, fria e imparcial. Como esta com que escrevo agora.

Aos poucos, durante aquela tarde serena que certamente me deixou mais sensível, fui sendo tomado por uma vontade tola: eu queria comprar um lápis. Já não seria feliz enquanto não me apossasse desse objeto simples, de vida pacata mas espírito radiante: em meio a nós que o ignoramos, um lápis ainda é capaz de projetar os sonhos mais lindos, e essa possibilidade de repente me encheu a alma, eu precisava de um lápis urgentemente, queria naquela tarde escrever um mundo novo que jamais poderia ser escrito diante de uma tela de computador. Tivesse eu um lápis naquele momento, naquele exato momento, pintaria um mundo poético que em nada pareceria com este cenário que nos rodeia: buzinas, outdoors nos mandando comprar sem cessar, prédios que nos sufocam. Este planeta assim como o vemos hoje não é o mundo que um lápis desenharia, ou que os usuários de lápis desenhariam: este é o planeta projetado e controlado por telas de computador de última geração, quase tudo o que vemos já nasceu numa tela indiferente de cristal líquido e jamais conheceu a ponta afiada e disposta de um lápis, o que por um lado é maravilhoso. Por um lado.

Assim, caminhei – jamais poderia ir de carro cumprir esta função, que paradoxo seria... – por algumas quadras buscando o tal objeto. Mais que isso, talvez estivesse buscando entrar em contato com um mundo passado, distante e que muitas vezes me parece mais poético, embora menos prático, que este em que vivemos. Ou talvez estivesse procurando somente me tornar alguém mais simples naquela tarde gostosa, e por isso queria ter comigo um objeto tão sutil. O certo é que caminhei em busca de minha felicidade, que residia no estúpido. E isso me agradava.

Encontrei então uma papelaria, lá havia vários. Comprei um: penso que não seria muito poético de minha parte comprar vários lápis. Me bastava um, lápis afinal tem vida longa, como quase tudo de antigamente.

Me senti então feliz, como há muito não me sentia. Uma felicidade distinta e branda que foi entrando por dentro de mim feito mel, viscosa e doce. Comprei um lápis. Fui feliz naquela tarde.


Frase do dia:
"[...] o selvagem vive em si mesmo; o homem sociável, sempre fora de si, só sabe viver na opinião dos outros e é, por assim dizer, do juízo deles que lhe vem o sentimento de sua própria existência."
Rousseau

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Para trazer um pedacinho de si

Que de mais importante se traz de uma viagem para onde se partiu sozinho, rumo a lugares até então desconhecidos? Fotos, presentes, um pouco de conhecimento da cultura local? Penso que não.

Faz umas duas semanas que voltei de mais um solitário mochilão por aí: pelo novo, pelo desconhecido. Ao retornar, naturalmente as pessoas mais próximas e que ficaram sabendo de minha última empreitada me indagaram como foi a viagem. Sei que sou muitas vezes excessivamente tímido e inseguro pra falar, mas senti que em relação a essa pergunta, por mais bem articulado que fosse, jamais conseguiria transmitir com precisão a vastidão de sentimentos aparentemente bobos que nos invadem quando passamos algum tempo, pouquinho que seja, longe de casa, de nossa cama, de nossos cheiros. Longe de nós mesmos, afinal. Assim, senti que em nenhum momento soube responder uma pergunta tão simples: como foi a viagem?

Pois como explicar que a melhor lembrança que tenho de determinada cidade é o olhar sorridente de uma senhora de feições indígenas, diria até sofredoras, que vendia pães doces num mercado público do município? Ou como dizer a alguém que os cuidados que recebi de três senhores que até então nunca tinham me visto e que me trataram como se fosse um filho num dos dias em que mais precisei, como explicar que a lembrança deles me vale mais do que qualquer fotografia do mais estimado ponto turístico que visitei? 

E, sem querer defender os viajantes solitários, não sei, sinceramente não sei até que ponto eu teria entrado em contato com muitos desses sentimentos caso não tivesse ido sozinho. Porque é distinta a experiência de viajar só, ou de estar só, pra ser mais abrangente. Aliás, sozinho não. Consigo. Entrar em contato com você, com seus fantasmas, suas inseguranças, com seu eu mais recôndito, aquele a quem na velocidade frenética de nosso dia a dia não temos tempo sequer de dar bom dia. Gosto de viajar só porque sempre, ao final, me conheço um tantinho mais. Entro em contato com uma parte de mim que desconhecia, ou que só conhecia superficialmente. Sinto-me um pouco mais dono de mim, um pouco mais senhor de meus pés e pernas e braços.

Sabe aqueles livros bobos, do tipo "50 coisas que você não pode deixar de fazer antes de morrer"? Se eu tivesse de contribuir com uma produção tão vazia, penso que meu conselho seria: antes de se despedir destes terrenos, planeje e faça uma viagem sozinho, para um lugar desconhecido que você deseje muito visitar. Ah, e não valeria no caso de já sair de casa tendo combinado com um amigo ou parente distante de hospedá-lo ou de lhe dar uma assistência por lá, isso estaria em letras pequenas, nota de rodapé.

Que se traz, então, de uma viagem aparentemente, e às vezes realmente, tão melancólica? Fotos, presentes, cultura? Sim, também. Mas o que mais importa: um pedacinho a mais. De você.


Frase do dia:
"Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV.  Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver."
Amyr Klink