terça-feira, 18 de setembro de 2012

Substantivo manso

Amor é substantivo manso, é oceano azul num domingo preguiçoso e tardio. Amar alguém não tem odor forte de perfume importado – o amor, se debruçado for, tem cheiro puro de banho recém-tomado, ou de lavanda suave, discreta e boa.

O amor não é vermelho como dizem, aliás que pecado pintá-lo de tão gritante, urrante cor. O amor... que cor tem o amor? Pode ser bege ou azul clarinho, feito céu de antigamente. Talvez marrom amadeirado forte, a lembrar móvel pesado e antigo de casa de vó, assim confortando o olhar. Mas vermelho, não.

Também não gosta de música alta, mesmo que nela se afirme contundentemente eu te amo, eu te amo, meu amor. Aliás, quanto mais alta e incontestável a canção, mais dela duvida o danado do amor. Por outro lado, alteia o silvo do vento, o cantar dos pássaros, o ranger compassado da rede que balança na varanda – e aí terás o amor em forma de som. Assim, é difícil escutá-lo em meio ao caos da cidade grande: quanto mais carros menos amor, quanto mais prédios menos amor, quanto mais shoppings menos amor. Nessas cidades tristes e agigantadas, o amor reside, sufocado porém, num meio grama de vida, amedrontado, às escondidadas.

Mas ainda vive, agora sei.

O amor, que como já disse é substantivo manso, me é hoje também substância viva, tem nome próprio que se grafa Jessica, assim sem acento mesmo, talvez já insinuando o modo franco, despachado de quem o possui. Intensa, entregue à vida como ela é, acostumada a se deixar levar pelos caminhos nem sempre prazerosos mas sempre vertiginosos da emoção – o mais provável é que ela discorde do que está posto aqui. O mais certo é que ela veja o amor vermelho e denso, cortantemente urrante, sem meios-termos.

E vai ver no fim das contas isto que se convencionou chamar amor não passa dessa alternância pulsante, desse compasso binário que nunca fatiga – vermelho-sangue onde pensavas amadeirado manso, calor gritante rompendo com o frio sossego. Porque, como já disse o poeta, "[...] Onde voas bem alto, eu sou o chão/ E onde pisas o chão, minha alma salta [...]".

E o amor aqui, na interseção.

(À Jessica).

Frase do dia:
"Eu considerei a glória de um pavão, ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas dágua em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.

Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.

Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz do teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico."
Rubem Braga

2 comentários:

  1. Meu amor, que lindo. Minha garganta travou... travou... Eu te amo, como eu te amo, assim, em tons de vermelho-sangue.


    Jessica.

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  2. Quando poderei ler algo novo por aqui? Já faz quase 1 mês... estou esperando =)

    Jequinha

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