quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A manga

Não costumo acompanhar o noticiário, prefiro não crer que o mundo seja aquele amontoado de infortúnios que eles insistem em proclamar. Não vou me alongar para justificar essa posição aparentemente a favor da ignorância ou da insensibilidade porque já falei disso outras vezes, aludindo sempre ao velho Braga e à sua crônica Os jornais. É bom quando alguém fala com admirável competência o que você gostaria de ter dito.

Ontem, porém, para extirpar da casa o silêncio que já começava a me incomodar, liguei a tevê e, enquanto preparava  ou melhor, tendo em vista a minha pouca habilidade gastronômica, adaptava – o jantar, ouvi da cozinha a notícia que animou esta crônica: aqui perto de casa, num cruzamento de grande movimentação comercial e em plena luz do dia, um homem morreu eletrocutado ao tentar tirar uma manga de um pé que estava situado dentro do terreno de um banco. É isso mesmo: havia um estabelecimento bancário, um muro com cerca elétrica, uma mangueira provavelmente com alguns galhos que apontavam para a rua, um homem... e uma manga. Não sei muitos outros detalhes: a notícia foi informada rapidamente, como tinha de ser(?): afinal, era só um homem, era só uma manga.

Nem ouvi mais o restante do telejornal, ainda que a tevê tenha continuado ligada. Entrei num daqueles momentos em que às vezes nos vemos: há uma voz que fala, que nos é dirigida, mas da qual só escutamos a dimensão mais concreta, como quem ouve uma língua desconhecida. O som, nesses casos, morre em si, falece tal qual veio ao mundo: mero ruído, não ganha vida de fato, seja porque não conhecemos a língua que preside àqueles sons, seja porque, como no meu caso, nossa mente deixa de lhe dar atenção. 

Enquanto terminava de preparar o jantar e ainda algumas vezes durante o dia de hoje, fiquei cá adivinhando os pensamentos travessos que certamente invadiram a cabeça do homem momentos antes de iniciar sua empreitada em busca da tal fruta. Como isto é apenas uma crônica sem pretensão nenhuma de verdade, gosto desta versão: Francisco (porque um homem capaz de estagnar sua rotina em busca de uma manga deve ter nome simples e honrado) vinha caminhando pela rua, lembrando todos os afazeres que sua esposa lhe incumbiu e os quais deveria cumprir antes de retornar a casa, quando avistou uma manga. Solitária, presa ainda a uma mangueira grande e imponente, cujos galhos mais altos sorriam para a rua, ela fez Francisco lembrar sua infância no interior do estado, quando roubava, por pura e perdoável traquinice, as mangas do vizinho. Lembrou-se do gosto travoso, de como se lambusava com as mangas alheias e ria com seus amigos de então (onde estarão?). Recordou o doce que elas possuíam e os fiapos que enganchavam em seus dentes depois da aventura. 

Olhou para o relógio, calculou o quanto se atrasaria se topasse a captura da fruta, a consequente advertência que levaria da esposa devido ao atraso (ela perdoaria fácil, bastava dividir com ela, que afinal também adorava manga...), cálculo vai, cálculo vem, e lá estava Francisco em busca de algo que o auxiliasse na empreitada. 

Encontrou ali por perto um pedaço um tanto longo de ferro. Em outros tempos, lembrou-se, arranjavam varas de madeira, ele e seus amigos. Que diferença faz, senão o peso?

Paro meu relato por aqui, paro onde Francisco foi feliz. 

Mas ainda consigo conjecturar: quando foram noticiar a fatalidade à sua esposa e disseram-lhe que ele morrera tentando pegar uma manga na rua, ela chorou, chorou, chorou, até que os olhos cansaram e, sorrindo aquele sorriso discreto e triste, pensou: acho que ele ia trazer pra mim...


Frase do dia:
"Pôr em dia. Que raio de expressão! Fazer. Fazer algo, fazer o bem, fazer xixi, fazer hora: a ação em todas as suas complicações. Contudo, por trás de toda e qualquer ação, havia sempre um protesto, pois todo fazer significa sair de para chegar a, ou mover algo para que ficasse aqui e não ali, ou entrar numa determinada casa em vez de entrar ou não entrar na casa ao lado, o que significava que em qualquer ato havia sempre a confissão de uma falha, de algo ainda não feito e que era possível fazer, o protesto tácito diante da contínua evidência da falha, da mesmice, da imbecilidade do presente." 
Julio Cortázar

2 comentários:

  1. Que lindo! Me senti ao lado de Francisco e desejando seus olhos para viver a vida assim.

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  2. É, meu caro, célebre itabirano (aquele, O Carlos): "a vida não chega a ser breve". Ah, antes que me esqueça: "havia um campo?".

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