terça-feira, 13 de maio de 2014

Uma plantinha

Era coisa de umas nove da noite quando minha me ligou perguntando se eu poderia acompanhá-la no velório de um amigo seu, falecido há pouco. Quem é, mãe? Waldir, Waldir Leite. Claro que eu o conhecia, como não lembrar daquele senhor que cultivava e manipulava plantinhas, ele que, prestando serviços ao shopping em que minha mãe trabalha há décadas, vivia por lá, sempre de bermuda e chinelo? Minhas maiores lembranças dele vêm de minha infância, quando vez por outra eu ia à sala de minha mãe e de repente, em meio àquele mundo de gente trajada como manda o cânon de uma grande empresa, aparecia aquele senhor simpático, puxando conversa, meio indiferente ao ambiente business que o circundava. Eu era criança e claro que na época não formulava nesses moldes a imagem dele. Na minha cabecinha, ele devia ser um cara legal.

Pois fui acompanhando minha mãe, que não sabia bem onde era a casa dele. Sim, eu disse a casa, porque esse fora o local que, antes de partir, ele escolhera para seu velório. Nada de ambientes clean em empresas do ramo, com quadros intencionalmente discretos, pisos caros mas que não dão na vista e uma garrafa de café ali ao lado, quente, mas alheio. Não. Estávamos na casa dele. Linda, espaçosa como ele, com plantinhas, plantões e eu, que nem o conhecia bem, me senti mais perto daquele senhor de bermuda e chinelo. 

O corpo foi posto lá e quando, depois de algum tempo, me aproximei para ver-lhe a última aparência, enchi os olhos d'água, mas não exatamente triste: ele estava de camisa de algodão branca, boné e chinelo, como gostava andar por aí. Também fora pedido do próprio senhor Waldir, e estou quase chegando ao ponto desta crônica, que não fala de morte e nem se quer triste, não senhor. 

Por fim, duas pessoas começaram a trazer dezenas de plantinhas, cada uma em seu vasinho, areia molhada. O senhor Waldir mesmo quem plantou quando ainda tava podendo, disse que era pra cada um que viesse levar uma plantinha, e que elas não gostam de muita água, não. 

Tudo aquilo me tocou, aquele senhor simpático sabia das coisas: afinal, não é bonito demais pensar sobre como queremos o nosso último contato com os que vão ficar por aqui mais algum tempo? Em que lugar, que cores, que cheiros, que sensações eu quero que levem de mim? Que lembrança (uma plantinha, deus, que lindo...) você quer dar a quem vai ficar aqui tocando a vida adiante?

Até outro dia a plantinha que levei (ou melhor, com que ele me presenteou) estava aqui. Vez por outra eu lhe botava um pouco d'água, mas só um pouco, porque logo via aquele senhor de bermuda e chinelo me alertando que ela carecia de pouquinho só.


 "Agora a música já não a libertava, não a impedia de pensar. Dançava dividida, uma parte dela no que fazia, a outra vendo-a fazer." 
(Pepetela)