terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Por que escrever

Faz muito tempo que não escrevo com frequência, quase me assustei, agora, quando me dei conta de que já ia quase a completar um ano da última vez que me pus a escrever. Em todo o ano passado, somente por duas vezes segui esse ritual da folha em branco, do silêncio, do esvaziamento lento que me abre uma fresta, sim, uma fresta pela qual eu vejo. Um lugar, uma pessoa, uma lembrança? 

Sim, em parte. Na sede de acalmar nossa cabecinha que tudo quer estabilizar, agarrar, nomear e que portanto não se conformaria, pondo os olhos pela fenda, em enxergar um mundo de coisas sem nome, acabo por ver lugares, pessoas, lembranças. Mas o que há mesmo, quando ponho os olhos pela fresta, sei que é um pedacinho de mim, e o resto  pessoas, lugares, lembranças  fica ali apenas rebuçando esse pedaço meu muito íntimo, que nem sei que forma tem.

Nessas semanas meu amigo Lúcio me sugeriu que eu voltasse a escrever. Aceitei a sugestão e pra falar a verdade eu também já vinha há tempos me cobrando esse retorno, mas a imposição, o dever-escrever, danado, não vinha. Adélia Prado, poeta brasileira, passou alguns anos entre a publicação de um livro seu de poesia e outro, o que pareceu estranho a alguém que, como ela, já vinha escrevendo versos com periodicidade. Questionada a respeito desse estranho hiato entre as duas obras, ela respondeu, não sei se com estas palavras, que a escrita não a tinha chamado. Bingo, Adélia.

Porque escrever, pra mim, gostaria que não fosse assim e óbvio que não é assim pra todo mundo, também carece desse chamado, desse caráter meio impositivo. Do contrário, perco uma cor, um traço, uma letra. Não vejo pela fresta, só finjo que vejo. O resultado é que, quando me ponho a redigir sem esse ter-que-escrever, me sinto tal qual o sujeito  todos nós na maior parte do tempo?  que, no trajeto do trabalho para casa, não percebe que a única coisa que realmente valeu a pena no dia foi aquele instante, uma faísca de tempo em que seu olhar cruzou com o de uma mulher desconhecida parada na rua e ele julgou vê-la sorrir antes que nunca mais se vissem.

Que quero dizer com isso? Que para mim a vida, assim como a escrita, só vale a pena mesmo nesses lapsos, nesses descuidos de espaço-tempo: primeiro cheiro do café fresco, toque na pele da primeira gota de chuva que vem vindo, corte fino da faca no dedo que apenas amparava uma cebola. Vida e escrita gritam por esses momentos de saliência, de descontinuidade, poesia em primeira instância. Faltou-me esse impulso nos últimos tempos para a escrita. Que não nos falte para a vida.

"Sentimento que não espairo; pois eu mesmo nem acerto com o mote disso  o que queria e o que não queria, estória sem final. O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito  por coragem. Será? Era o que eu às vezes achava. Ao clarear do dia." Guimarães Rosa