segunda-feira, 11 de julho de 2016

Uma despedida


Saí de sua casa com a angustiada sensação de que me despedira, ali, dela. Estranho, ilógico ter de dizer adeus a alguém ainda com vida - se ainda há vida, por que não conseguimos reter um tantinho dela, assim pra sempre? Ou, pergunta mais complexa: continua havendo vida (na gente que fica) quando não tem mais vida (aquele que se vai)? Isso que persiste e dói na lembrança da gente que fica - é vida ainda?

Saí então de sua casa com olhos marejados, de adeus. Ela já tinha quase noventa, e eu, que estivera ali por uma combinação feliz de acasos, sabia que provavelmente não voltaria a vê-la. Minha intuição se fez verdade em menos tempo do que imaginava: poucas semanas depois de ter-lhe feito essa visita, ela... se fez fina música, diria Guimarães Rosa.

Foi bom ter estado com ela aquele dia. Não tínhamos muito mais que conversar, ou talvez eu tenha percebido, ali, que não havia razões para fingir que aquilo não era uma espécie de despedida. Não valia a pena então investir demais num diálogo protocolar: palavra nenhuma encobriria o sentimento de adeus que tomava conta de mim naquele fim de tarde. De sorte que pus, sem nada dizer, minha mão sobre as dela, que por sua vez estavam postas sobre suas pernas. Foi o suficiente para animá-la e deflagrar entre nós um último elo verbal sem cheiro de protocolo: "Olha as unhas dele... No capricho... Legal.". Ainda perguntou quem era a pessoa que estava indiciada pela aliança em minha mão. Apresentei-lhe, fez sinal de positivo. Mantive minha mão sobre as suas por mais algum tempo. Para minha surpresa, ela ainda guardava autonomia suficiente para tomar sozinha seu café, comer alguns biscoitos. Fazia vários anos que não a via e, embora nunca tenha tido contato constante, rotineiro com ela, me agradavam as suas idas esporádicas a Fortaleza, seu jeito superficialmente durão.

Na saída, disse-lhe que estava muito feliz em ter ido vê-la. Não ouvi resposta. Deixei à porta de sua casa algumas lágrimas que se seguraram, e agora caem.


(À "tia" Edna, minha madrinha, e a todos em quem sua presença é sentida).
 

"O que nos toca persiste e se projeta nas coisas seguintes. O intenso tem, portanto, uma qualidade própria - que é a de persistir além da duração de sua causa."
Paul Valéry