segunda-feira, 28 de junho de 2010

Por acaso.


Um dia desses, eu estava numa livraria e me deparei na estante com um título que me chamou a atenção. Folheei-o e, depois de ler o prefácio, me arrepiei com o que lá estava dito, embora deva admitir que ultimamente, meu Deus, me sensibilizo com as coisas mais desconexas do mundo. Outro dia vi uma propaganda de um carro na televisão – um pouco emotiva, com uma música que me remonta a outros tempos, mas enfim, não passava de uma propaganda! - e fui às lágrimas. Mas, como vinha dizendo, fiquei intrigado com a introdução do tal livro.

O autor, cujo nome me escapa agora, dizia que o livro iria tratar sobre o acaso. Ou, para ser mais claro, sobre como o acaso interfere em nossas vidas sem que nós nos demos conta e, além disso, sobre como nós, humanos, infelizmente não sabemos até hoje lidar com esse agente presente na vida de todos. Sem exceção.

Bom, o certo é que o que me sensibilizou de imediato e me revelou que de fato o acaso brinca a todo momento com nossas vidas, foi o que o autor disse como primeiro exemplo do livro.

Seu pai, judeu, estava, como tantos outros, lutando para sobreviver na Europa em plena Segunda Guerra Mundial. Num certo dia, o dono de uma padaria alemã, depois de ter uma pequena parte de seus pães "roubados" por um judeu, chamou um soldado da SS e disse que queria esse judeu achado a qualquer custo. O soldado, então, para mostrar serviço ao companheiro alemão e de quebra matar mais alguns, juntou um grupo qualquer de judeus – entre os quais estava o pai do autor - e disse que, se o "ladrão" não se apresentasse, todos do grupo capturado seriam fuzilados. Então, o pai do tal escritor, vendo que todos seriam mesmo mortos e para poupar a vida de todos os outros inocentes que ali estavam, deu um passo à frente, embora não tenha sido ele a pessoa a roubar os pães. E então, quando o soldado já estava prestes a matá-lo, o padeiro interrompeu e disse que achava não ter sido aquele o criminoso. Incrível, mas esse bondoso, louvável homem sobreviveu à guerra e conseguiu fugir da Europa, vindo a conhecer a mulher com quem se casou e teve um filho, escritor do livro de que falo agora.

Fiquei impressionado. Eu e o autor, que, anos depois da guerra, ouviu de seu pai essa rara história. Ao ouvir esse relato, ele, o filho, se deu conta de que, o fato de ele ter conseguido nascer, existir, não passou de um detalhe, de um acaso. Seu pai poderia perfeitamente - conforme escolha que fez! - morrer naquele dia em que deu um passo à frente para (talvez) salvar outros inocentes. Ou poderia ter ficado quieto e calado como o restante das pessoas, opção que mataria todo aquele grupo. Se isso tivesse acontecido, ele não teria conseguido fugir da Europa, conhecer sua futura esposa e ter um filho. A partir daquele dia, o autor percebeu que muitos, mas muitos mesmo, dos fatos de nossas vidas se devem, em maior ou menor grau, a uma combinação indecifrável de fatores. É o acaso como agente de nossas vidas. Muda-se um detalhe e muda-se uma trajetória, uma vida. É claro que as escolhas fazemos nós (e por isso mesmo não acredito no que chamam "destino"), mas a que levarão, daqui a sei lá quantos anos, essas escolhas, é algo um tanto sombrio, invisível, imprevisível, me parece. Outro exemplo verídico dado no início do livro, esse de fazer rir qualquer um, foi de um homem que, depois de sonhar por sete dias consecutivos com o número sete, apostou na loteria com o número 47, pois 47 era o resultado de 7x7. Ficou riquíssimo, graças ao fato de não ter aprendido a tabuada quando criança.

Sorte, acaso, não sei de mais nada. Só espero estar, mesmo com essa sensação de me ver a longo prazo caminhando no escuro, num caminho feliz, tranqüilo. E nada mais.


Frase do dia:
"Não é necessário que compreenda isto. Basta que me conserve com carinho na sua lembrança, como eu, inalteravelmente, a conservarei na minha."
Fernando Pessoa

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