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Últimos cantos

Sentou-se à mesa quando a noite já encobrira toda a casa. Era uma casa muito só. Feita como para lembrar que o destino daquela família seria sempre a solidão. Festas, amores, amigos, sempre tão abundantes, não apagavam, antes reforçavam, pelo avesso, o destino solitário daquela gente. Talvez, desconfiava ele, apenas a solidão enformasse uma família, dando-lhe a substância necessária à sua própria identificação: é a solidão que nos conjunta — intuía ele, sem precisão de palavra, como se só alcançasse o rumo da ideia.
Aquela casa não tinha data e por isso mesmo contava uma história.
Estando os vizinhos a mais que três gritos de distância, as noites perfaziam sempre um ritual: era o mundo que se enlutava, deixando só a luz da família-casa a lembrar que ali ainda passava gente, ainda se aquecia uma esperança. Toda noite chegando era o dia recuando com seus bichos alegres que só retornariam quando o mundo clareasse uma vez mais, se deus quiser. Este espetáculo, tão previsível, ganhava, vive…

Cobrinhas ou um banho de mar

Daqui a poucos dias me mudo pra lá. Bobagem todas as justificativas que tenho me dado e que amparam a decisão de sair, depois de quase três anos, de uma cidade de 20 milhões de habitantes, cujos ensinamentos ninguém jamais vai conseguir me apagar, para uma vila de pescadores cuja população não chega a duas mil pessoas: me mudo mesmo é porque senti que precisava de novo estar perto do mar, aquele especificamente. Nossas lágrimas sentem-se mais à vontade pra despencar no oceano ou isso é só uma metáfora pobre tentando colorir esta crônica? Aliás, bonito imaginar que as lágrimas são filhas do mar — cada um sendo água-e-sal à sua maneira — e que, quando alguém chora fingindo banhar-se no oceano, está apenas tornando possível o retorno da filha-lágrima às suas origens mais misteriosas.
Não nasci na Quixaba, mas sempre que alguém me pergunta de onde sou titubeio por uma fração de segundo: é que nasci em Fortaleza, mas não sou bem de lá, deveria dizer. Ou poderia adaptar a resposta que um pri…

Nosso dia das mães

Cheiro de mar

Já sentado, sozinho, na sala de embarque do aeroporto, parecia controlado o momento de despedida vivido há pouco. Mão esquerda procura o queixo, polegar desliza pelo pescoço, indicador repousa sob as narinas: me surpreende um cheiro de mar por debaixo de minha unha.
A cena é de ontem, quando retornava para São Paulo — cidade que, entre tantas maravilhas, não tem o mar em que eu me banhara no dia anterior e que persistia no único espacinho em que ele podia mesmo se conservar — apregado entre carne e unha.
Mas não é da presença ou ausência de água salgada margeando uma cidade que trato aqui, não me interessam essas superficialidades que distinguem duas cidades, quaisquer que sejam elas. O que me impeliu, nesta noite, depois de alguns anos, a novamente me verbalizar — "morreria, se lhe fosse vedado escrever?", era a pergunta de Rilke, indagação precisa de quem vê na escrita uma maneira, talvez única, de conferir alguma forma estável, imperfeita decerto, a seus anseios... — n…

Uma despedida

Vida nas esquinas

Ainda há sensibilidade e esperança sendo plantada em várias esquinas de Fortaleza. Não sei quem teve a ideia, quem a executa, se são ações de um grupo ou manifestações de um poeta solitário, desconheço enfim a procedência do movimento, ignorância que fiz questão de manter. Não pus no Google "mensagens nos semáforos de Fortaleza" ou algo do gênero. Em casos assim, creio haver mais beleza na dúvida, afinal sempre um ponto de abertura para nosso imaginário, do que na convicção, para o bem e para o mal sempre um ponto de fechamento das possibilidades. 
Refiro-me aos pequenos poemas estampados em várias esquinas da cidade, sempre perto de algum semáforo: estratégia aliás inteligente na medida em que capta a atenção de todos aqueles que aguardam o surgimento da cor verde para seguir seus caminhos. 
Lembro-me apenas de dois desses poemas. Um deles nos presenteia assim: Sinal fechou? Lembra do cheiro dela. E o outro: Sinto muito por você, . Assim mesmo, sem assinatura em ambos e, n…