domingo, 11 de julho de 2010

Meu irmão.

"É a cara do Valdemir.". Passei anos da minha infância ouvindo de diversas pessoas essa frase ou algo muito próximo, o que me deixava, como bom menino mimado que era, com uma certa raiva, um certo bico, possivelmente com ciúme do meu irmão mais velho, pois eu não queria ser a cara dele, queria ser eu, Lucas, que não tem cara de outra pessoa, tem apenas, desculpando a estúpida redundância, a minha cara, ora mais. Coisas de criança mesmo.

Hoje, às vésperas de mais um aniversário do Val, percebo espantosamente como tenho, sim, muito da cara dele, e claro que não estou a me referir a traços físicos, pois desses tive a felicidade de me livrar depois da infância, estou a me referir a algo mais profundo, mais tocante, pois sei que, se logo que acordo, ligo o som do quarto antes mesmo de ir tomar banho, estou a repetir um costume dele com o qual tive que crescer nas manhãs lá na casa do Papicu, onde morávamos num mesmo quarto, dividíamos os mesmos metros quadrados dia após dia, e lembro que era à cama do Val que vez por outra eu recorria muito timidamente, para não ter de dormir sozinho depois de me ver aterrorizado pelo pôster de um homem medonho estampado por ele na parede, homem esse que anos depois fui descobrir ser o Bob Marley, com um olhar e uma cabeleira nem um pouco indicados para uma criança de poucos anos. O certo é que fui crescendo, crescendo e, sem querer, segui alguns ou muitos de seus hábitos, talvez no jeito pausado de conversar, no modo de se vestir, no gosto pelas farras, em parte do gosto musical e até num jeito de bater na bola, meio de bandinha, meio de chapa, hábito esse que infelizmente não consegui até hoje copiar muito bem.
Bom, o certo é que ele é meu irmão, e me traz uma ótima sensação lembrar que, em todos os momentos da minha vida, ele esteve sempre, de uma forma ou de outra, presente, quando saí do Canarinho para estudar no Batista, quando ia jogar os Interclasses do colégio, quando íamos aos jogos do Fortaleza no PV, quando comecei a tomar as primeiras cervejas, quando não sabia fazer as tarefas de Matemática e ele me ajudava, quando passei e quando não passei no Vestibular, quando comecei a namorar, e chega de exemplos, que a intenção já foi alcançada.

Ainda hoje me dizem, "É a cara do Valdemir.". Mas, aí, eu olho pra trás; passa muito rápido um filme deste texto na minha cabeça; eu sorrio; e, embora não pronuncie, minha verdadeira resposta sempre será, "Muito obrigado.".


Frase do dia:
"A vida é aquilo que te acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos."
John Lennon

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