domingo, 8 de agosto de 2010

Um olhar para o mar.


Tem sido sentado, sozinho, e que não se entenda aqui solitário, com os pés descalços a pisar na areia úmida da praia, a olhar aquele mar lindo, de um verde muito claro, ou de um azul muito escuro, a depender da vontade com que a natureza acordou, que tenho me encontrado, me equilibrado, me descoberto, e ficado em paz, nada mais que em paz, ali, de frente para o mar, consigo quase ficar sem pensar em nada, ouvindo o ir e vir das ondas, olho pro horizonte, que nada me traz e também nada me pergunta, e isso tem me bastado, a falta de perguntas e a ausência ainda maior de respostas, que isso deve ser mesmo a vida, ausência de sentido, ou sentido demais para um jovem de vinte e poucos anos, é como se o mar olhasse para mim e dissesse, 'Tenha calma, rapaz, não se afobe, verá muito ainda por aí, aprenderá um bocado ainda, nem eu sei o que te espera, mas de certo muita coisa ainda esses teus olhos verão, e esses ouvidos escutarão, e essa cabeça e essa boca e tudo o mais, o certo é que, repito, não tenha pressa, pois ela, como bem sabe, em nada condiz com a perfeição.' E ali fico, permaneço, divago, olho de uma ponta a outra do mar, até onde o olhar alcança, até onde a mente imagina, meu Deus, quantas almas desde que o mar é mar já buscaram o equilíbrio nesse oceano sem fim, quantas almas ao redor do mundo repetiram esse meu olhar perdido nas ondas, talvez nem mesmo Deus saiba, ou tenha já perdido suas contas, são muitos os anos, duzentos, mil, mil e duzentos, dez mil anos, já não se lembra ele qual foi a primeira pessoa que teve a inteligente ideia de ir buscar a paz naquele mundo de água salgada, talvez ele, Deus, também não lembre em que oceano, em que mar terá sido esse primeiro olhar lançado, "Terá sido no Atlântico, não, acho que não, talvez no Mediterrâneo, não me lembro agora, talvez pelas bandas do mar Vermelho, que merda, até a mim a idade chega e os fatos me fogem à memória.", tenha calma, meu Deus, não se aflija com tão pouco.

E assim me parece que, dentre as três pontas deste triângulo (o mar, esse olhar que no mar é lançado e o dono do olhar) o único que se altera com o tempo é mesmo o dono do olhar, pois, como sabemos, o mar é sempre o mesmo há sabe-se lá quantos anos, e o olhar, como mostrado acima, nem Deus lembra mais quando foi pela primeira vez lançado às ondas, então, sendo assim, não me resta outra conclusão senão a de que sou só mais um a buscar paz exatamente no lugar aparentemente mais ausente, mais sem respostas, mais indiferente a qualquer tipo de sentimento, e no entanto é de lá que tenho, como tantos outros ao redor do mundo e dos tempos, extraído um sentimento realmente agradável, como se, de frente para o mar, injetasse-me pela veia uma dose de tranqüilidade que não, infelizmente não se encontra em farmácias ou hospitais, se encontra no mar, hoje percebo. E assim, depois de olhar, olhar e olhar para esse gigante de água e sal, acabo por me elevar um pouco, por me sentir um tantinho mais forte, mais maduro, mais cético e, principalmente, mais tranqüilo. Levanto-me como que embevecido, ludibriado, ausente, flutuante e, quase sorrindo, me despeço a pensar, muito sábios esses deuses, a paz bem aí, numa fonte que, se não é eterna, já dura um bom tempo. Até a próxima, meu caro mar.


Frase do dia:
"O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos."
Marguerite Yourcenar, citado em "Meu nome não e Johnny" por Marilena Soares

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