sexta-feira, 10 de junho de 2011

Cai a noite


E cai a noite mais uma vez; escura como há sempre de ser, mas hoje sem lua, sem estrelas – feito meu coração, que manda apagar todas as luzes só pra ninguém vê-lo sofrer.

Fosse eu um poeta, agora poetizaria; fosse músico, comporia; fosse apaixonado, amaria; fosse feliz, sorriria. Mas sou só um enfastiado cronista que esbarra sempre no mesmo assunto: eu – este tema sem sal, sem fim.

Levanto desta cadeira que me acomoda e me dirijo à cozinha em busca de um copo d’água. Casa completamente vazia, inerte, indiferente. Caminho seguro, passos firmes, cabeça erguida, como se, ao invés do copo d’água, estivesse caminhando pra receber um troféu importante num evento pomposo, perante uma plateia elegante e bem comportada. Com o copo erguido, no entanto, em lugar da salva de palmas, me satisfaço com o prazer da água gelada escorrendo-me garganta abaixo, num felicíssimo ainda que insignificante momento da vida.

Na volta, não me sento na cadeira que me espera, e tampouco encaro a folha em branco que me desafia. Finjo - feito mulher bonita andando na rua quando sabe estar sendo admirada - nem notá-los, e passo direto à varanda. Nas ruas pouco som, nos vizinhos alguns movimentos; nada demais.

Nada demais, exceto a melancolia, que transborda, em demasia. É melhor voltar e acabar logo com isso. Fechar o texto, os olhos e dormir um sono inquieto, pra amanhã acordar subitamente assustado, com a singela sensação de haver sonhado com o que não devia.


Frase do dia:
"Quem era aquela que te amou
no sonho, quando dormias?
Para onde vão as coisas do sonho?
Vão para o sonho dos outros?
E o pai que vive nos sonhos
volta a morrer quando despertas?
Florescem as plantas do sonho
e amadurecem seus frutos?"
Pablo Neruda

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