sexta-feira, 3 de junho de 2011

Minha companheira


Acho que estou criando uma aranha. Digo acho porque não tenho certeza se devo definir nossa relação, minha em relação à aranha, como de criação; afinal de contas, não a crio como se cria um cachorro ou um gato – ainda estou estudando se nosso grau de intimidade já exige de mim tamanho zelo em relação a ela.

Ainda não a nomeei, de modo que peço desde já desculpas pela repetição dos pronomes ela que aparecerão nesta crônica.

Vive aqui pertinho de onde estou a escrever, o aracnídeo de que falo. Na verdade me sinto na obrigação de dizer que me assusta, me exaspera o sentido que transmite essa palavra – aracnídeo. Tanto que chego até a olhar para os lados, subitamente amedrontado, quando lembro que estou dividindo meu espaço com um bicho classificado como aracnídeo, o qual, com um nome desses, sem dúvida alguma pode a qualquer momento se aproximar sorrateiramente de mim e me picar o corpo indefeso, injetando-me todo o seu poderoso e letal veneno, levando à morte este solitário cronista. Mas penso isso somente quando essa tal palavra me cruza o pensamento; nos demais momentos tenho convicção de que ela não passa de um ser frágil que elegeu o meu banheiro como sua casa, e por lá vive pacata e silenciosamente – o que me agrada bastante, pois, se aranha emitisse algum tipo de som, esta certamente já estaria morta. Mas Deus sabe o que faz; por isso escolheu um bicho mudo para me fazer companhia.

Vi-a crescer; sim, a vi crescer! Tinha um centímetro, um centímetro e meio no máximo de distância da cabeça ao fim de cada perna, quando me lembro de tê-la visto pela primeira vez. Hoje tem uns dois e meio centímetros de raio, se assim se pode dizer. E os números são precisos. Estou com uma régua a meu lado, e como a vi agora há pouco, foi bem fácil idealizar sua evolução nesse instrumento que um dia me foi útil em aulas de Geometria.

Pelo visto tem crescido rápida e saudavelmente, o que me deixa satisfeito, pois daí entendo que meu banheiro tem lhe dado todo o conforto de que precisa uma aranha para viver bem, para erguer pacientemente sua casa e levar adiante sua vida; solitária vida, aliás, visto que ela não tem família; ou, se a tem, esconde de mim, pois só a vejo sozinha.

Confesso – este momento até me dói o peito, e por isso o deixei mais para o fim da crônica – que já tentei matá-la. Não consegui, claro, mas houve a intenção, ora; e, pelos parcos conhecimentos que tenho de Direito, isso já constitui um grave crime. Pra minha sorte, ela não guarda mágoas, e também não houve testemunhas, de modo que continuo em liberdade. Mas esse infortúnio foi logo no começo, quando ainda desconhecia sua personalidade serena; quando eu ainda a enxergava com maus olhos – quando ainda a enxergava como um aracnídeo.

Mas lá no fundo sou meio medroso; e com essa saúde e esse crescimento exacerbado, sei não; acho que posso até capturá-la e me despedir dela pra sempre, mandando-a embora aqui de casa; afinal, é melhor nos separarmos assim, antes que a faxineira a descubra e a dor seja maior.


Frase do dia:
"(...), tinha inteligência bastante para não precisar que lhe dissessem que o importante não era estar ali parado, com rezos ou sem rezos, a olhar uma sepultura, o importante foi ter vindo, o importante é o caminho que se fez, a jornada que se andou, se tens consciência de que estás a prolongar a contemplação é porque te observas a ti mesmo ou, pior ainda, é porque esperas que te observem."
José Saramago

Um comentário:

  1. ...queira Deus que a tua mãe não a veja, pois se ela for descoberta, a tua querida aranha, vai sobrar pras Neides e pra ti tambem Luquinha, e era uma vez uma aranha.

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