quinta-feira, 9 de junho de 2011

Um mundo, talvez, equivocado


Sinceramente. Não sei se o mundo está de pernas pro ar ou se eu é que não consigo me adaptar, não consigo acompanhar a geração de que faço parte.

Pipocam a todo momento frases e livros e palestras nos dizendo que devemos sonhar mais, sonhar grande, porque quem sonha pequeno é limitado. Nas propagandas, nos shoppings, nas vitrines, nos carros, na vida: não basta o que se tem, não se conforta com o que se alcança. Não se pode aposentar e deixar fluir (na verdade quem deve se aposentar e desaparecer em breve é este verbo: fluir) um objetivo alcançado; deve-se, sim, renová-lo, expandi-lo. É isso o que nos empurram goela abaixo, disfarçada e eficientemente.

Porque o homem tem de querer sempre mais; cada um de nós tem de ser sempre o melhor e mais bem sucedido e nunca deixar de sonhar; é silenciosamente proibido deixar de sonhar, pois aquele que deixa de fazê-lo perde o encanto, perde a cor, perde a razão de viver.

Há carros constantemente mais luxuosos e numerosos e cheios de opcionais; casas cada dia mais requintadas; celulares que nos mantêm excessivamente conectados (ou seria aprisionados?); prédios mais seguros; internets gradativamente mais velozes; computadores dia a dia menores e mais potentes... e mais e mais e mais – tudo mais.

A Mega-Sena está acumulada de novo, acho que com uma premiação de 30 milhões de reais. Nessa semana ouvi alguém tecendo aquele típico comentário: "Se eu ganhasse um dinheiro desse..." E complementou a frase com luxos e mais luxos. Eu - juro de pé junto e perante o santo que você quiser -, se ganhasse uma dinheirama dessa ou mesmo um pedacinho dela, sem nem pestanejar me mudaria lá pro sítio, na pacata praia de Quixaba, e lá viveria até o fim de minha vida: correndo todo dia na praia com os pés descalços; comendo um peixe fresquinho (ou um camarão, e também aceitaria uma lagosta); jogando bola à beira-mar; ouvindo canto de passarinho; criando cachorro; ouvindo galo cantar; chupando caju ou a fruta da época; andando a cavalo (nem sei andar direito a cavalo, mas aprenderia, garanto que sim!); tudo isso rodeado de livros, de vida, de paz (ah, e não dispensaria uma televisão; só pra ver meu time jogar). De casa sairia aqui acolá, só pra conhecer algum lugar do mundo e voltar.

Não sei se estou errado ou se é pecado; se parei no tempo ou mesmo se me meti no mundo errado; mas meu sonho é assim: simples, pleno. Se isso me faz um ser limitado, aceito a condição e sigo minha caminhada com uma leve impressão: o mundo é que está equivocado...


Frase do dia:
"O mundo terá acabado de se foder no dia em que os homens viajarem de primeira classe e a literatura no vagão de carga."
Gabriel García Márquez

2 comentários:

  1. Que coisa mais linda! Essa semana li nesse blog - que amos - http://abraobico.blogspot.com/ - "Sonhar é fazer rascunho da vida"! Amei seu rascunho. Vou pescar e copiar pra mim.
    Vc é menininho mais que lindo, "senhorito" Lucas!

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  2. Luquete, O mundo externo é reflexo do interno... Assim, seu avesso e aversão às doenças e desgraças da civilização atestam que no avesso do seu avesso nasce um militante pela vida plena, quiçá da ecologia, quisera eu da educação... O consolo é saber que esses que se gabam e se matam por dinheiro um dia descobrem que o que vale é a vida simples, o sentimento sincero e a natureza... Sim, com certeza nos sentimos estranhos e de tanta estranheza encontramos força para reconhecer caminhos inusitados. Uma coisa sei: a simplicidade é irmã da sabedoria e as duas são mães da felicidade. Avante!

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