segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Viajar? Pra quê?


Infelizmente, vivemos num tempo em que tudo tem de ter um propósito, uma serventia. Se você sai de casa e avisa que vai caminhar um pouco por aí, sem rumo nem hora pra voltar, certamente alguém vai lhe perguntar, ou ao menos pensar, assim meio sem jeito: mas... pra quê? Ou mesmo: mas... aconteceu alguma coisa?

Pois bem, como pra tudo tem de ser dada uma função, aqui vou eu. Viajar? Por que viajar, viajar pra quê?

Viajar pra sentir-se rasgando por dentro. Basicamente pra isso.

Fazer compras? Tirar fotos? Experimentar as comidas típicas? Balela. Quem pensa que o propósito de uma viagem - qualquer que seja ela - é esse, infelizmente desconhece a verdadeira utilidade da coisa, e acaba se empaquetando nessas pequenices, nesse turismo superficial, supérfluo. Obviamente não estou dizendo que fazer compras, tirar fotos e filar uns pratos típicos fazem com que uma viagem perca a sua essência, claro que não. Tudo isso pode sim fazer parte do pacote, mas o que quero dizer é que o miolo, a razão primeira de existir de uma viagem não é essa.

Se me permitem a colocação, viajar é um amontoado de verbos reflexivos: sentir-se, permitir-se, rasgar-se, conhecer-se, encontrar-se, renovar-se, consolar-se. E por aí vai. É reconhecer a sua ignorância perante o que é novo e ainda assim conseguir reunir humildade suficiente pra perguntar as coisas mais bobas: como se faz pra sair da cidade, onde se compra um pacote de café, onde se abastece o carro.

Porque viajar, no fim das contas, é um exercício de humildade, senão vejamos o seguinte: você, logo você, que conhece sua cidade como a palma da própria mão, não sabe sequer como sair do bendito fim de mundo em que se meteu, ou não sabe nem onde se compra um mísero pacote de café, logo você, a mesma pessoa que faria isso de olhos fechados dentro do seu, como diria Marisa Monte, infinito particular.

Quem gosta de viajar enxerga o mundo através de lentes mais sensíveis, que captam as curvas dos objetos, que absorvem as cores, que acalmam o olhar.

Olhar nosso, que nos dias de hoje já anda por demais angustiado neste mundo sem compasso. Olhar que precisa se humanizar, se serenizar. Pra isso, viajar pode ser uma boa pedida.

Mas, só pra não esquecer: viajar pra que mesmo, afinal? Pra rasgar-se por dentro. Lembre-se disso, o resto é resto.


Frase do dia:
"Eu quero dizer
Agora o oposto do que eu disse antes"
Raul Seixas

6 comentários:

  1. Maluquete,
    Agora você me rasgou por dentro... Essência das viagens, essência da vida, segredos dos idosos, sabedoria das crianças: olhar o tempo e o espaço pelas lentes da simplicidade e do amor... Que texto belo! Parece com você... caducando estou...Seja bem vindo de volta ao mundo dos tolos, românticos e sonhadores!

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  2. Lindo!
    Procuro palavras para comentar e não acho! Então vou usar 2 gênios, Raul: "Por que que eu tenho caneta e não consigo escrever? (escrever)" e Chico Buarque: "Nunca somos,sempre estamos!"
    Estou encantada!
    bj
    Eliane

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  3. já estava esperando seu texto viajeiro, Lucas, e ele veio, uma beleza de reflexão pra um menino tão novinho...concordo com você, viajar é exercício de humildade e auto-conhecimento, sem falar no conhecimento do outro, do diferente e no final das contas tão igual na mesma humanidade. e aprender como ir e vir, inclusive como abrir e fechar portas e janelas, não? o que é automático em nosso lugar vira aprendizado. parabéns mais uma vez, cada dia mais sou sua leitora-fã incondicional. beijos da tia zuleica.

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  4. Eliane, quero dar o meu testemunho de como o que Você diz é verdadeiro: todos os anos, há 25 anos, me permito pegar um carro e sair pelas estradas brasileiras. Em média, rodo 4 mil quilômetros por viagem. E é verdade: é um exercício de humildade incrível. Você é obrigado, por instinto de sobrevivência, a deixar a sua arrogância de lado. Você está em território inexplorado. A cada vez que viajo pelas estradas sinto que preciso ser mais gentil, mais cordial, mais amigo, mais interessado, para poder conseguir um mínimo: um copo de iogurte gelado e um copo de leite quente sem açúcar de manhã. A todo momento,como Você diz, eu preciso ser humilde e gentil ao perguntar o caminho para onde quero ir e também para garimpar caminhos de lugares para onde não queria ir, mas que meu interlocutor que eu nunca tinha visto antes SABE que é fantástico, novo, maravilhoso.
    Viajar, é, realmente, uma terapia da redução à nossa insignificância neste mundo e nos permite INTERAGIR com o outro de uma posição que nos engrandece como ser humano. Pois até Obama, se chegar numa cidade do interior do Ceará, não conseguirá um pedaço de aipim cozido pra comer de manhã se não tiver a humildade de tratar o outro como um ser útil e necessário.
    Parabéns, Você e suas idéias maravilhosas!
    Seu amigo, TOny PacheCo

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  5. -O bom viajante é aquele que sabe de onde vem e não prá onde vai(atribuida a Marco Polo).
    De onde vimos trazemos os condimentos necessarios para formar nossas poções de saber.Sem eles ficamos entregues às cvc's da mesmice.

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  6. “Toda viagem é só de ida”.
    Sempre gostei dessa frase, embora desconheça sua autoria.
    Larissa.

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