sexta-feira, 22 de junho de 2012

Julgamento

Vez por outra me parece que o homem, enquanto espécie quero dizer, acabou por tomar um rumo disparatado, ilógico, estúpido mesmo, o que pra mim na verdade não teria nenhum problema – desde que esse tal rumo fosse reconhecido por nós exatamente assim: disparatado, ilógico, estúpido. Desde que reconhecêssemos em nós o equívoco em que nos metemos. Mas muitas vezes não é assim que sucede, e nós continuamos evitando nos olhar no espelho, nos esquivando de cutucar nossas feridas, de questionar que diabos de espécie, ou de sociedade, ou de vida, chame-se lá como for, foi esta que (des)construímos.

Já cansei de escrever, o que dirá de pensar, sobre isto. Mas, se até García Márquez certa vez falou – não lembro onde, mas acreditem, ele disse mesmo – que um escritor só escreve um livro na vida, os outros são somente variações deste que é o principal, se até ele disse isso, num tom provocador é claro, me sinto mais à vontade pra abordar este meu tema que é o mesmo, se mudo as palavras aqui acolá, obviamente não passa de artifício pra que o leitor não se canse e vá atrás de escritor menos prolixo.

Brincadeiras à parte, muito me dói ver como somos afeitos a julgar. Isso mesmo, julgar: este talento que temos de querer ver com nossos olhos o que não pertence ao nosso olhar, esta insistência de pensar, como se diz, com nossos botões, quando na verdade muitas vezes a frase deveria ser repensada: os botões não são nossos, não conhecemos as verdadeiras razões que fizeram aquela pessoa, esta sim dona deles, agir como agiu. Ou, se me permitem uma última metáfora chula, não conhecemos os motivos por que aquele indivíduo decidiu abotoar, desabotoar ou simplesmente jogar fora a vestimenta que tinha em mãos.

Muito me alegra, ou ao menos me traz esperança, quando ouço alguém dizendo: "Não entendi por que ele fez isso, mas ele deve ter seus motivos", "Eu acho que não agiria assim, mas vai ver ele não conseguiu fazer melhor que isso" ou qualquer outra sentença que traga consigo a sensibilidade de entender que é muito difícil tomar sempre as decisões ditas corretas, proceder sempre da maneira mais madura possível. Porque, no fim das contas, subjacente a esse tipo de colocação está um reconhecimento: viver é difícil, ora.

Vez por outra, quando estou dirigindo e algum motorista ao lado mantém o dedo na buzina por intermináveis três, quatro, cinco segundos, fico de fato tentado a concluir: deus, que cara idiota. Mas sempre que possível (às vezes no calor do momento não me é possível) tento me eximir de qualquer julgamento: vai ver ele, assim como eu, tem aversão a buzina, mas, naquele dia, depois de brigar com a esposa, ter de discutir com os filhos, levar sermão do chefe, acabou descontando em nossos ouvidos. Vai saber.

Talvez essa mania que temos de julgar não passe de um reflexo, extensão de um mundo altamente rotulado – ao seu redor mesmo, agora, deve haver diversas marcas, títulos, rótulos. Criamos uma sociedade que se acostumou a afirmar (e que em nome dessa prática, acaba formando juízos demais) em detrimento do simples espectar.

A conversar é longa, não cabe numa crônica só. Exercitemos o não-julgar, e já será um bom começo.


Frase do dia:
"[...] se vemos um punhado de poderosos e de ricos no topo das grandezas e da fortuna, enquanto a multidão rasteja na obscuridade e na miséria, é porque os primeiros só estimam as coisas que desfrutam na medida em que os outros delas estão privados, e porque, sem mudar de estado, deixariam de ser felizes se o povo deixasse de ser miserável."
Jean-Jacques Rousseau

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