sábado, 22 de dezembro de 2012

Letras que amolecem

Quase dois meses distante da escrita: um longo tempo pra quem, como eu, encontra nas letras uma maneira, talvez a mais eficaz delas, de apreender o mundo. Não todo o mundo, que afinal é sempre grande demais pra de repente ser compreendido – mas o meu mundo.

Durante esses dias, vivendo sem apalavrar o meu rededor – expressão hispânica que do ponto de vista sonoro me agrada bem mais que o nosso equivalente, redor –, senti minha mente às vezes se embaraçando, meus pensamentos se emaranhando uns nos outros, minha vida aos poucos se tornando líquida, como uma pedra de gelo esquecida sobre a mesa: fui derretendo, perdendo solidez, consistência – eram meus pensamentos escorrendo por entre minhas próprias mãos.

Mais que isso e pior que isso: senti me desumanizando. Se meus pensamentos iam, como disse no parágrafo anterior, se liquefazendo, eu ia me endurecendo. A princípio quase concluí que houve então uma contradição: parte de mim se liquefazia, outra, enrijecia. Mas não: a relação é na verdade complementar, causal até: se não escrevo, não concateno bem o meu pensar, que por isso derrete, se dilui no caos do mundo. O que resta nesse caso em mim? A rigidez de quem não pondera o seu mundo, desumanizando-o, portanto.

Aliás, talvez a grande dificuldade da vida adulta seja esta, afinal: amadurecer sem endurecer, ou sem endurecer demais. Penso ser difícil, pois todo crescimento implica certa dose de distanciamento. A própria etimologia da palavra impõe essa condição: maduro.

Assim, escrevo para frear esse enrijecimento que a vida quer nos impor. Escrevo pra me amolecer, pra me humanizar. É por isso, então, que não faço grande alarde do que redijo: acho que quem mais precisa de minhas palavras sou eu. Ou, como certa vez disse a espanhola Rosa Montero, salvo engano em sua obra A louca da casa, livro de rara lucidez no que tange ao fazer literário – escrevo, sobretudo, para o grande leitor que há dentro de mim.

Na escrita amoleço, nela queria ficar. Mas há uma vida que chama e machuca, por isso quando posso corro de lá pra cá.


Frase do dia:
"Vivo desassossegado e escrevo para desassossegar."
José Saramago

4 comentários:

  1. Engano seu, meu caro, que quem mais precisa das suas palavras é você. Palavrear é também terapêutico, ao crescimento, a dor, a nós - humanos desumanizados. Quão belo: "Aliás, talvez a grande dificuldade da vida adulta seja esta, afinal: amadurecer sem endurecer, ou sem endurecer demais. Penso ser difícil, pois todo crescimento implica certa dose de distanciamento. A própria morfologia da palavra impõe essa condição: maduro". Tua sensibilidade de captar a dureza da palavra, trazer com afinco a que insiste em fugir é ousado em demasia, de quem insiste em reinventar o dom. Tu e teus heterônimos! Eu bem senti falta.

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    1. Obrigado pelo belo comentário, de verdade.
      Fico muito feliz ao saber que o pouco que escrevo às vezes conforta não só a mim.
      Felicidades,
      Lucas

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