quarta-feira, 26 de junho de 2013

Nosso descompassado ser

Dizem que sou uma pessoa calma, serena, pacífica, e acabo por não ter como negar: de fato, pareço calmo, sereno, pacífico. Esse é o meu parecer. Se falo, costumo procurar as palavras mais moderadas, menos agressivas, fujo dos olhares agudos, das exclamações cheias de vida, das opiniões mais radicais. Opto quase sempre por caminhos que tenham uma cor morta  bege?  equilibrada e contida. De tanto parecer assim, as pessoas acabam por não ter dúvidas: olha lá o bege passando.

Mas as pessoas, que culpa elas têm, afinal? Como poderiam inferir outro conceito de mim senão esse? Se elas só têm acesso, ou melhor, se eu só lhes dou acesso a essa parcela de minha realidade, como posso eu me queixar de ser isso a seus olhos? Ora, a nossa essência é uma instância para sempre perdida e nós, queiramos ou  não, acabamos sendo apenas aquilo que... parecemos ser. Que me entendam: quando digo que somos aquilo que parecemos ser, não me refiro apenas às roupas que vestimos e afins. Refiro-me também, e sobretudo, às frases que enunciamos, à maneira como olhamos o outro, à forma como andamos ou deixamos de andar. Como diz Saramago no filme José e Pilar, "[....] tudo o que fazemos é autobiografia, [...] a vida de cada um de nós a estamos contando em tudo quanto fazemos e dizemos." Ou seja, a vida de cada um de nós, o nosso ser, nós estamos construindo-o a todo momento. Foi Valéry quem disse, não sei mais se exatamente com estas palavras, que é a caminhada que faz o caminhante, e não o contrário. Portanto, somos essa eterna construção, dirão os mais otimistas, somos essa eterna incompletude, bradarão os mais pessimistas.

Seja como for, o certo é que nos últimos tempos venho sentindo mais latente esse descompasso entre minha  aparência e o que estou a afirmar como minha essência, entre o que pareço e o que estou dizendo que sou. E a escrita, aliás, me é mais uma vez uma possibilidade de me apresentar pelo avesso, sob lentes de aumento.

O Lucas é calmo, mesmo quando meu espírito se dilacera em agonia. O Lucas é pacífico, mesmo quando sou guerra e sangue. É mansidão, quando sou revolta. É razão, sou paixão. É candura, sou só sexo. É reticência... sou exclamação!


Frase do dia:
"Ver é a permissão para não pensar a coisa, já que a vemos."
Merleau-Ponty

2 comentários:

  1. Legal Lucas. Se eu soubesse escrever assim como você, eu hoje escreveria a mesma coisa. É exatamente assim que os outros me enxergam. É exatamente assim que eu "pareço" ser.

    Você escreve muito bem.
    Um outro "bege".

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  2. Meu amor,


    vc é a pessoa mais bonita que conheci, esse teu todo de candura e irritação( esta parte poucos conhecem), tuas seguranças e inseguranças fazem de ti esse ser humano que muito encanta aos olhos mais próximos.

    Te amo.

    Jequinha.

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