sábado, 19 de março de 2011

O espetáculo do mundo


"Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo." A frase, que pertence a Fernando Pessoa, ficou em minha cabeça desde o dia em que a li na abertura de mais um (belíssimo) livro de Saramago, "O ano da morte de Ricardo Reis"

Parece simples, mas não é. Satisfazer-se, contentar-se com o simples observar das (infinitas) cenas que saltam aos nossos olhos, não é das tarefas mais fáceis, mas cada vez mais me parece das mais sábias atitudes que um ser humano pode tomar. Deixando a poesia de lado e dando voz aos mais céticos, é óbvio, meu caro, que por mais sábio que seja o indivíduo, não dá pra ficar só parado vendo o tempo passar; afinal de contas, não conheço ninguém que não tenha que estudar ou trabalhar ou cuidar da casa ou dos filhos. Não conheço ninguém, enfim, que - indo de encontro à tal frase - não tenha que participar ativamente de toda essa encenação da vida. Assim, peço licença ao nosso caro Fernando Pessoa e refaço a sua frase com uma pitada de realidade: sábio é o que, nos momentos em que pode, contenta-se com o espetáculo do mundo.

Porque a vida é, sim, o maior e mais rico palco que uma plateia pode exigir. É aqui, frente aos nossos olhos - olhos frios, indiferentes, condicionados a verem somente o que lhes interessa; olhos burros; olhos, incrível e paradoxalmente, cegos -, que o mundo mostra todo o seu esplendor, a sua beleza, sua cor. É aqui, talvez aí na sua rua, que o universo pinte o azul mais bonito no céu, e talvez seja aí, na sua calçada, que ele desenhe o sorriso mais lindo no rosto do casal que mais se ama. É aqui, neste bendito planeta, que o mundo cura e capricha e colore (embora seja aqui também, sob o mesmo teto indiferente da vida, que ele mostra toda a sua tragicidade, voracidade e injustiça de que é capaz; mas aí já são outros 500).

O certo é que, seja de dia ou de noite; com sol ou chuva; com alegria ou tristeza, está posto o espetáculo; só nos resta a sabedoria para abrirmos os olhos e nos contentarmos com o tal.


Frase do dia:
"Escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria."
Clarice Lispector

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