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Meu irmão.

"É a cara do Valdemir.". Passei anos da minha infância ouvindo de diversas pessoas essa frase ou algo muito próximo, o que me deixava, como bom menino mimado que era, com uma certa raiva, um certo bico, possivelmente com ciúme do meu irmão mais velho, pois eu não queria ser a cara dele, queria ser eu, Lucas, que não tem cara de outra pessoa, tem apenas, desculpando a estúpida redundância, a minha cara, ora mais. Coisas de criança mesmo. Hoje, às vésperas de mais um aniversário do Val, percebo espantosamente como tenho, sim, muito da cara dele, e claro que não estou a me referir a traços físicos, pois desses tive a felicidade de me livrar depois da infância, estou a me referir a algo mais profundo, mais tocante, pois sei que, se logo que acordo, ligo o som do quarto antes mesmo de ir tomar banho, estou a repetir um costume dele com o qual tive que crescer nas manhãs lá na casa do Papicu, onde morávamos num mesmo quarto, dividíamos os mesmos metros quadrados dia após dia, e lem...

Por acaso.

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Um dia desses, eu estava numa livraria e me deparei na estante com um título que me chamou a atenção. Folheei-o e, depois de ler o prefácio, me arrepiei com o que lá estava dito, embora deva admitir que ultimamente, meu Deus, me sensibilizo com as coisas mais desconexas do mundo. Outro dia vi uma propaganda de um carro na televisão – um pouco emotiva, com uma música que me remonta a outros tempos, mas enfim, não passava de uma propaganda! - e fui às lágrimas. Mas, como vinha dizendo, fiquei intrigado com a introdução do tal livro. O autor, cujo nome me escapa agora, dizia que o livro iria tratar sobre o acaso. Ou, para ser mais claro, sobre como o acaso interfere em nossas vidas sem que nós nos demos conta e, além disso, sobre como nós, humanos, infelizmente não sabemos até hoje lidar com esse agente presente na vida de todos. Sem exceção. Bom, o certo é que o que me sensibilizou de imediato e me revelou que de fato o acaso brinca a todo momento com nossas vidas, foi o que o autor dis...

Cartas embaralhadas e um adeus, Saramago.

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De uns dias pra cá, muitas cartas se embaralharam em minha cabeça. Parece que eu tinha um jogo perfeito na mão, uma sequência de cartas de fazer inveja a qualquer grande jogador de pôquer, e aí, como num piscar de olhos, bateu um vento forte e frio e escuro e misturou tudo, copas, rei, ás, paus, valete, ouro, espada, amor, sorriso, dor, alegria, tudo. Agora, ainda um pouco embevecido com essa mudança tão brusca e com a qual definitivamente não contava, me pego por horas na varanda do quarto pensando na vida, olhando pra rua, como se dela fosse sair a fórmula perfeita que provasse por a+b que eu ainda sou o mesmo, e que minha vida vai continuar bem, como sempre esteve nos últimos tempos. Fico lá, na varanda, esperando que um jogo de cartas volte a se assentar em minha cabeça e me diga que, a partir dali, aquele será o arranjo com o qual vou ter de me virar, será com aquela sequência que irei jogar, que irei viver. Mas tudo o que sinto em minha cabeça são cartas e mais cartas voando, com...

Um nó.

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Um nó. É isso mesmo. Sabe quando, num determinado dia, você se depara com um nó daqueles que você tenta, tenta e não consegue desatar? Você fica aflito, até mesmo com raiva do pobre do nó que, muitas vezes, foi você mesmo que teve a proeza de criar. Pois é. Parece que estou com um nó desses na cabeça. Venho tentando afrouxá-lo, desatá-lo, rasgá-lo, e nada. Ele continua lá, intacto, indiferente à minha angústia e aos meus verdadeiros pedidos para que, por favor, meu caro nó, chispe, saia, desate-se e me deixe em paz. Ultimamente tenho, já que não consigo me desvencilhar desse mais novo (e incômodo) companheiro, pensado muito sobre ele e sobre como a vida de fato põe nós onde imaginávamos duas pontas soltas, ou, para ser mais claro e usar uma metáfora mais profunda, põe silêncios onde imaginávamos palavras. Ou põe choros onde imaginávamos risos. Tenho pensado, pensado e, em meio ao turbilhão de inquietações que me cercam a cabeça, consigo enxergar algo que sempre ouvi dizer, algo cuja ve...

Um triste boxeador.

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Como um boxeador em fim de carreira, velho, decadente, sem forças, ou sem querer buscar forças, vou sendo golpeado a cada música, a cada acorde menor, daqueles que doem lá na alma, onde você nem imaginava que pudesse haver dor. Tudo parece ir remoendo, desfalecendo o pobre boxeador, que, embora esteja ainda cheio de amor, enxerga um amor de guarda baixa, desvanecido, que apanha a cada golpe desferido, sem saber como nem por onde se defender, como se tivese esquecido num lugar agora oculto da memória suas técnicas um dia infalíveis, técnicas que fizeram desse boxeador a pessoa com mais amor no peito e na alma. Ele se alimentava desse amor, porque esse amor bastava para suas energias, mas agora, sem saber como explicar, o boxeador baixa a guarda e se deixa golpear, como se quisesse ao fim mostrar somente que foi maltratado, sem culpa de ninguém, mas foi maltratado. No intervalo do round , foi ao córner, mas lá não havia um técnico sequer para limpar-lhe o destruído supercílio, o adversár...

Ocultas palavras.

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As palavras têm muita valia. Sim, sim, disso nunca duvidei e nem será neste texto que irei discordar. Mas o que poucas vezes paramos para pensar é como faltam palavras no nosso mundo, faltam verbos, substantivos, advérbios capazes de descrever um momento especial, uma cena, uma cor, uma dor, um sorriso, que estão ali, na nossa frente, mas que empacam na hora de passar ao papel, procura-se num dicionário, em outro, busca-se na mente, que para isso serve, mas a palavra não vem, ou talvez não exista, e o poeta, romancista ou seja lá o que for, frustra-se, envergonha-se, como se aquilo fosse unicamente uma falha dele, escritor, que não tem vocábulos suficientes para descrever algo tão simples, tão visível, quase palpável. Mas infelizmente é assim, as palavras têm disso, brincam, divertem-se às nossas custas, como se depois de causarem seus estragos, nem sempre pequenos, tivessem um momento só delas, palavras, em que se juntam todas numa sala bem grande somente para fofocar sobre as confusõ...

O texto de um dia.

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Às palavras, quero me entregar sempre. Quero um dia produzir escritos refinados, perfumados como um jasmim ou um manacá posto num jardim bem bonito, numa daquelas casas super aconchegantes, com paredes e móveis de madeira pesada, bem escura e bonita e imponente. Pronto. Está posta a comparação, quero um escrito que nem essa casa, e cheirando a jasmim ou a manacá. Será um texto que vai me preencher, vai me embevecer do começo ao fim, quero delirar, me encantar, sentir meus olhos brilharem ao final com uma produção minha, só minha, saída dessa cabeça que minha mãe dizia ser oca, oca nada, mamãe, veja só esse texto, eu que fiz, eu, só eu! Um texto de uma tirada só, feito numa madrugada fria e solitária, com uma lua cheia a iluminar levemente a janela, inspirando-me da primeira à última palavra. E não será para mostrar para qualquer um, da minha intimidade cuido eu. Ao fim das últimas palavras, salvo o documento e desligado o computador, ainda escutarei susurros no corredor me dizendo, ...