sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Gente boa ≠ boa gente


Certa vez me contaram esta história. Boba, sim, mas verdadeiríssima.

"Uma pessoa gente boa nem sempre é uma pessoa boa gente."

O gente boa pode ser – estou só dizendo que pode ser – aquele cara que aperta a sua mão e pergunta como você tá, mas que na verdade não quer saber se você vai mesmo bem. Já o boa gente pergunta se tá tudo bem e se certifica da resposta: olha no seu olho, procura a sinceridade no seu sorriso, pergunta se você resolveu aquele problema lá no trabalho, ou em casa, ou no relacionamento. Ele quer de fato saber "como vai você", já dizia Roberto Carlos.

O gente boa eventualmente é aquele que entende de política e se revolta com a corrupção no País, mas sorri faceiro quando consegue subornar o guarda que lhe multaria ou quando se aproveita de uma brecha pra sonegar um impostozinho (pra que pagar imposto, se ninguém faz nada mesmo?). O boa gente pode até não andar com roupa de grife, mas faz de tudo pra pagar suas contas rigorosamente em dia, e aceita, sem tentativas maliciosas de persuasão, a multa que lhe aplicada porque a seta direita queimou e ele não tinha reparado ainda.

O gente boa às vezes é o cara que diz que por ele já tinha ido embora morar na Europa, porque lá é rua limpa e carro para na faixa de pedestre – mas que continua vivendo aqui, abrindo a janela do carro pra jogar lixo fora e fechando os olhos pra quem quer atravessar a rua. Já o boa gente, se o lugar não for muito longe, vai a pé mesmo, pois ele acha que faz bem à saúde caminhar um pouco e se sentir um pouco menos enclausurado.

O gente boa conta histórias maravilhosas, engraçadíssmas – de si. O boa gente prefere ouvir histórias dos outros, que as dele ele já conhece muito bem.

O gente boa, no caminho de volta pra casa, repara num carro importado maravilhoso estacionado bem na esquina, e adentra o lar sonhando em ter aquela máquina. O boa gente, por sua vez, passa pelo mesmo canto e repara que, ao lado daquele automóvel ostensivo, misera uma senhora de olhar triste e piedoso – e com isso entra em casa se perguntando por que nosso mundo é tão desigual.

O gente boa chega à mesa do bar, fala com todo mundo feito político em véspera de eleição e vai sentar com a sua tribo. O boa gente chega, fala com a sua tribo e em pouco tempo está conversando tranquila e atentamente com quem ele só falou de longe quando chegou.

Claro que nem todo gente boa é egoísta, superficial como brinquei acima. Óbvio que uma pessoa pode ter as duas qualificações (ser um cara carismático e humano ao mesmo tempo), mas uma coisa é certa: por aí há bem mais gente boa que boa gente, e veja como, na matemática das palavras, a ordem dos fatores pode sim alterar um resultado.


Frase do dia:
"É preciso ter sofrido muito para que a felicidade esteja em tão pouco."
José de Alencar

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