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Sutil, em benefício dela

Poucas vezes em minha ainda curta vida vi um ato tão amoroso. Sutil, discreto, para muitos uma banalidade que pouco ou nada significou, mas a mim pouco importa: eu gosto das banalidades, o essencial da vida reside mesmo é lá – no banal, no sutil. Imagine: sua mãe vive os últimos dias de vida, não há mais como lutar contra uma doença mesquinha que, hora a hora, dia a dia, suga dela um tantinho mais de sua força. Não, ela não está num leito de hospital: a família, num ato louvável de humanidade e ciente de que não havia mais o que fazer, poupou-a das paredes brancas  e dos olhares cientificamente indiferentes de médicos especializados. Assim, ela estava em sua cama e certamente feliz com isso, porque, quando não há mais remédio que nos chegue, é a ela que recorremos como último medicamento, ou talvez, repensando a sentença, talvez ela seja o primeiro, e não derradeiro, remédio que sempre buscamos. Vendo assim que sua mãe...

Ela se foi

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Eis um pecado da natureza: fazer que os cachorros vivam menos que os homens. Ou melhor, até: fazer que os bichos de estimação quase todos tenham vida tão curta a ponto de normalmente partirem antes que seus donos. Vejamos se não há aqui uma incoerência: vemos um ser nascer, damos-lhe um nome, colocamo-la nos braços, educamo-la de modo que ela aprenda a fazer silêncio quando necessário e a tratar sempre bem as visitas que lhe afagam a cabeça – e, quando completa 15 aninhos de vida (uma criança, um futuro inteiro pela frente...), taxamo-la de velha e nos preparamos conformados para sua morte que se avizinha. A natureza, esta mesma que dizem justa e defensora do equilíbrio, regeu sem preocupação dois destinos e fez uma mãe enterrar uma filha – não há nada de errado nisso? Não, não era tua hora ainda, Tequila, querida nossa. Tu já eras peça importante, que em nada destoava (antes consonantava...) dentro do sítio Jucurutu. Há quem diga, eu inclusive, que já estavas a sofrer...

O que dista da arte para o artista

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Outro dia li algo a respeito, e concordei sem titubear: há uma diferença, por vezes grande, entre a arte e o artista, entre o mundo gentil que o escritor eventualmente recria quando diante de uma página em branco, e o gesto egoísta do qual – na posição de cidadão comum, de homem (ci)vil – ele às vezes não consegue escapar. Porque a meu ver são entidades distintas a do Vinicius de Moraes que escreveu o Soneto de separação e a que talvez todas as manhãs saísse pra comprar pão perto de sua casa. Este exemplo não é dos melhores, pois penso que o Vinicius talvez tenha sido um escritor nosso dos que mais aproximou sua vida de sua arte, no sentido de que tanto sua biografia de homem civil quanto sua trajetória literária foram vividas intensa e apaixonadamente. Noutros termos: o Poetinha não cabe tão bem como exemplo do paradoxo(?) em que caem tantos homens quando confrontados com suas artes por uma razão simples: porque ele teve o mérito, diria até a felicidade, de ter conseguido aprox...

O prazer que (por ora?) desfaleceu

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Que faz um ator que perde o encanto de estar no palco, que sentido há num músico que já não se sente tocado pelos sons, que sustenta um atleta a quem não mais atrai competir? Ou ainda: que faz um cronista que se desencantou com o colorido da vida? Esmorece, míngua. Aos poucos. Vai perdendo a vontade de sorrir, até que já não sorri mais, mesmo quando julga que deveria; vê-se amargando por dentro, lentamente, feito serpente a envolver um rato indefeso e branco; sente-se afastando do mundo como se este não lhe dissesse respeito, ou como se a insignificante parte que lhe coubesse – escrever – não mais lhe atraísse. Ah, pobre cronista que padece desse mal...! Escurece-lhe vista, obstrui-se-lhe o peito, seca-lhe a vida: o mundo, até outro dia fervilhante e esperançoso, torna-se gélido, cortante. Vale a pena continuar escrevendo? Acaso sim, escrever sobre o quê: um mundo colorido que não lhe chega mais aos olhos, portanto insistir numa escrita que não lhe soa mais verdadeira, ...

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É triste, mas estou sem tempo para os devaneios do blog . Não sumirei de vez, mas os escritos serão mais raros.

Vou-me embora pra infância

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Faz algumas semanas, era um sábado de manhã, e a escola em que eu estudei até meus dez anos, na qual desde então não voltara a pisar, estava literalmente de portas abertas – aliás, alguma vez elas me estiveram cerradas? Ninguém na portaria, ninguém na recepção, de modo que fui entrando acanhado naquele ambiente que um dia foi tão meu. Havia ido lá só pra buscar minha tia, com quem combinara de ir ao cinema e que estava lá dando uma palestra para os professores da escola. Imaginando que ela ainda não se desocupara, decidi descer do carro e dar uma olhada em como estavam aqueles velhos corredores: cenários em que meus mais puros sonhos plantei. A escola estava mesmo vazia, e a cada passo que dava colégio adentro, mais estranho me sentia: foi como rever – em cada pequeno espaço que felizmente foi mantido naquela escola – um pedaço de mim que ficou pra sempre guardado naquelas salas, naquele mundo colorido que nada tem a ver com a realidade em preto e branco que mais tarde se nos ...

Adeus, e deve ter ido brincar

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Ela chegou aqui em casa ontem, e me bastou ler o nome do destinatário, escrito em letras tortuosas, garranchudas, típicas de quem está ainda tomando o jeito de pegar num lápis – pra adivinhar quem era o remetente daquela carta. Sim, uma carta, mais uma dessas coisas que o nosso mundo acabou por engolir sem nos perguntar se dispensávamos mesmo sua existência.  Mas a missiva era de fato de quem eu imaginara: foi só olhar o outro lado do envelope e lá estava infantilmente grafado o nome completo do meu sobrinho Vinícius, que não mora por aqui e lamentavelmente só pode nos visitar uma vez ao ano. O destinatário, no entanto, não era eu, mas minha mãe, de modo que preferi manter o envelope lacrado e esperar que ela o abrisse quando chegasse do trabalho. Mesmo com o envelope fechado, porém, num desses momentos em que percebemos estar um pouco mais sensíveis, mas em que, talvez por estarmos sozinhos, podemos nos deixar guiar por essa passageira embora acentuada sensibilid...