Postagens

Da vida que cria faltas ou das faltas que criam a vida

Imagem
Algumas poucas leituras teóricas sobre o assunto, outros tantos momentos observando as pessoas com que convivo e um olhar que, às vezes espinhosamente, forço que se volte pra dentro, pro eu: eis as razões do que me faz cada vez mais nos últimos tempos concluir   – somos todos movidos pela falta.  É a falta que nos move, a mim, a você, ao seu vizinho, ao motorista do ônibus. Mas falta do quê, alguém há de perguntar. De dinheiro, de amor, de saúde, de paz? Ou, mais concretamente, de uma casa própria, de um emprego que satisfaça, de um celular de última geração? Sim, todas são possibilidades, mas não precisamos estabelecê-las nesse momento, aliás é até melhor que não as especifiquemos agora: são muitas as faltas, muitas as gentes e, em cada gente, quantas faltas? Não entremos nesse mérito, atentemos apenas para um fato: há uma casa vazia em cada um de nós. E é exatamente essa lacuna que nos faz agir, mover, buscar: é assim que de repente vejo que a vida, sob determinado po...

Nosso descompassado ser

Imagem
Dizem que sou uma pessoa calma, serena, pacífica, e acabo por não ter como negar: de fato,  pareço  calmo, sereno, pacífico. Esse é o meu parecer. Se falo, c ostumo procurar as palavras mais moderadas, menos agressivas, fujo dos olhares agudos, das exclamações cheias de vida, das opiniões mais radicais. Opto quase sempre por   caminhos que tenham uma cor morta  – bege?  –  equilibrada e contida. De tanto parecer assim, as pessoas acabam por não ter dúvidas: olha lá o bege passando. Mas as pessoas, que culpa elas têm, afinal? Como poderiam inferir outro conceito de mim senão esse? Se elas só têm acesso, ou melhor, se eu só lhes dou acesso a essa parcela de minha realidade, como posso eu me queixar de ser isso a seus olhos? Ora, a nossa essência é uma instância para sempre perdida e nós, queiramos ou  não, acabamos sendo apenas aquilo que... parecemos ser. Que me entendam: quando digo que somos aquilo que parecemos ser, não me refiro apenas à...

Do que é, ou poderia ser, luxuoso

Imagem
A linguagem é um fascínio: as palavras, cujos significados julgamos conhecer inteiramente, pouco a pouco vão se cambiando, se metamorfoseando, como numa dança lenta quase imperceptível aos olhos menos atentos  –   sorrateiras, elas vão incorporando significados outros, de modo que dialogar, argumentar nem sempre são tarefas simples: a outra pessoa apreenderá exatamente o que queríamos dizer? Perceberá quais significados estão por detrás dos itens lexicais que ingenuamente convocamos à nossa fala? Falar é também se arriscar. Mas isso é conversa pra outro dia. Nessa semana, na defesa da dissertação de mestrado de meu irmão, vi um dos professores que compunham a banca falar, em meio a tantos outros assuntos interessantes, sobre uma palavrinha aparentemente boba, cujo significado parece estar se multiplicando nos últimos tempos, a propósito do que disse eu no primeiro parágrafo. Luxo . Há não muitos anos, se ouvíssemos tal palavra, penso que seríamos levados a pensar som...

Letras que amolecem

Imagem
Quase dois meses distante da escrita: um longo tempo pra quem, como eu, encontra nas letras uma maneira, talvez a mais eficaz delas, de apreender o mundo. Não todo o mundo, que afinal é sempre grande demais pra de repente ser compreendido – mas o meu mundo. Durante esses dias, vivendo sem apalavrar o meu rededor – expressão hispânica que do ponto de vista sonoro me agrada bem mais que o nosso equivalente, redor –, senti minha mente às vezes se embaraçando, meus pensamentos se emaranhando uns nos outros, minha vida aos poucos se tornando líquida, como uma pedra de gelo esquecida sobre a mesa: fui derretendo, perdendo solidez, consistência – eram meus pensamentos escorrendo por entre minhas próprias mãos. Mais que isso e pior que isso: senti me desumanizando. Se meus pensamentos iam, como disse no parágrafo anterior, se liquefazendo, eu ia me endurecendo. A princípio quase concluí que houve então uma contradição: parte de mim se liquefazia, outra, enrijecia. Mas não: a relação é...

Medo, mais que da morte, da vida

Imagem
Você tem medo? Foi essa a pergunta, apenas aparentemente despretensiosa e que se referia à vida em geral, que um dia desses minha namorada me fez enquanto conversávamos acho que sobre as dificuldades, os anseios que estavam atormentando a mim ou a ela, também já não lembro ao certo. Acho que pensei um pouco antes de responder – aliás, está aí algo que às vezes acaba por me fazer mal, embora seja esta igualmente a maneira que encontro de me sentir bem: pensar. Pensar antes de falar, pensar antes agir, pensar depois de ter agido ou mesmo sem nada ter feito: penso para evoluir, mas como pensar sem me doer? – e lhe disse que sim, que tenho medo da vida, que isso deve ser coisa meio do ser humano até. Não que eu tenha me arrependido da resposta, pelo contrário, mas acho que ela não foi suficiente, havia algo mais por dizer, e é por isso, será sempre por isso, que volto a escrever: para tentar exprimir o que não foi de todo dito, para repisar o terreno já batido, escrevo para correr...

Substantivo manso

Imagem
Amor é substantivo manso, é oceano azul num domingo preguiçoso e tardio. Amar alguém não tem odor forte de perfume importado – o amor, se debruçado for, tem cheiro puro de banho recém-tomado, ou de lavanda suave, discreta e boa. O amor não é vermelho como dizem, aliás que pecado pintá-lo de tão gritante, urrante cor. O amor... que cor tem o amor? Pode ser bege ou azul clarinho, feito céu de antigamente. Talvez marrom amadeirado forte, a lembrar móvel pesado e antigo de casa de vó, assim confortando o olhar. Mas vermelho, não. Também não gosta de música alta, mesmo que nela se afirme contundentemente eu te amo, eu te amo, meu amor. Aliás, quanto mais alta e incontestável a canção, mais dela duvida o danado do amor. Por outro lado, alteia o silvo do vento, o cantar dos pássaros, o ranger compassado da rede que balança na varanda – e aí terás o amor em forma de som. Assim, é difícil escutá-lo em meio ao caos da cidade grande: quanto mais carros menos amor, quanto mais prédios...

Um lápis

Imagem
Foi numa dessas tardes amenas, céu azul aberto quase sem nuvens, sol brando que em nada incomodava, antes suavizava – era um dia assim, como outro qualquer. Um dia tão bobo, que me dei conta de que precisava comprar um lápis, se é que ainda há lápis neste mundo moderno repleto de notebooks , iphones , ipads e outras parafernálias que felizmente desconheço: um mundo que já não nos permite ver a letra do outro, um mundo para o qual temos todos a mesma caligrafia, fria e imparcial. Como esta com que escrevo agora. Aos poucos, durante aquela tarde serena que certamente me deixou mais sensível, fui sendo tomado por uma vontade tola: eu queria comprar um lápis. Já não seria feliz enquanto não me apossasse desse objeto simples, de vida pacata mas espírito radiante: em meio a nós que o ignoramos, um lápis ainda é capaz de projetar os sonhos mais lindos, e essa possibilidade de repente me encheu a alma, eu precisava de um lápis urgentemente, queria naquela tarde escrever um mundo novo...