segunda-feira, 11 de julho de 2016

Uma despedida


Saí de sua casa com a angustiada sensação de que me despedira, ali, dela. Estranho, ilógico ter de dizer adeus a alguém ainda com vida - se ainda há vida, por que não conseguimos reter um tantinho dela, assim pra sempre? Ou, pergunta mais complexa: continua havendo vida (na gente que fica) quando não tem mais vida (aquele que se vai)? Isso que persiste e dói na lembrança da gente que fica - é vida ainda?

Saí então de sua casa com olhos marejados, de adeus. Ela já tinha quase noventa, e eu, que estivera ali por uma combinação feliz de acasos, sabia que provavelmente não voltaria a vê-la. Minha intuição se fez verdade em menos tempo do que imaginava: poucas semanas depois de ter-lhe feito essa visita, ela... se fez fina música, diria Guimarães Rosa.

Foi bom ter estado com ela aquele dia. Não tínhamos muito mais que conversar, ou talvez eu tenha percebido, ali, que não havia razões para fingir que aquilo não era uma espécie de despedida. Não valia a pena então investir demais num diálogo protocolar: palavra nenhuma encobriria o sentimento de adeus que tomava conta de mim naquele fim de tarde. De sorte que pus, sem nada dizer, minha mão sobre as dela, que por sua vez estavam postas sobre suas pernas. Foi o suficiente para animá-la e deflagrar entre nós um último elo verbal sem cheiro de protocolo: "Olha as unhas dele... No capricho... Legal.". Ainda perguntou quem era a pessoa que estava indiciada pela aliança em minha mão. Apresentei-lhe, fez sinal de positivo. Mantive minha mão sobre as suas por mais algum tempo. Para minha surpresa, ela ainda guardava autonomia suficiente para tomar sozinha seu café, comer alguns biscoitos. Fazia vários anos que não a via e, embora nunca tenha tido contato constante, rotineiro com ela, me agradavam as suas idas esporádicas a Fortaleza, seu jeito superficialmente durão.

Na saída, disse-lhe que estava muito feliz em ter ido vê-la. Não ouvi resposta. Deixei à porta de sua casa algumas lágrimas que se seguraram, e agora caem.


(À "tia" Edna, minha madrinha, e a todos em quem sua presença é sentida).
 

"O que nos toca persiste e se projeta nas coisas seguintes. O intenso tem, portanto, uma qualidade própria - que é a de persistir além da duração de sua causa."
Paul Valéry

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Vida nas esquinas

Ainda há sensibilidade e esperança sendo plantada em várias esquinas de Fortaleza. Não sei quem teve a ideia, quem a executa, se são ações de um grupo ou manifestações de um poeta solitário, desconheço enfim a procedência do movimento, ignorância que fiz questão de manter. Não pus no Google "mensagens nos semáforos de Fortaleza" ou algo do gênero. Em casos assim, creio haver mais beleza na dúvida, afinal sempre um ponto de abertura para nosso imaginário, do que na convicção, para o bem e para o mal sempre um ponto de fechamento das possibilidades. 

Refiro-me aos pequenos poemas estampados em várias esquinas da cidade, sempre perto de algum semáforo: estratégia aliás inteligente na medida em que capta a atenção de todos aqueles que aguardam o surgimento da cor verde para seguir seus caminhos. 

Lembro-me apenas de dois desses poemas. Um deles nos presenteia assim: Sinal fechou? Lembra do cheiro dela. E o outro: Sinto muito por você, . Assim mesmo, sem assinatura em ambos e, no segundo, com essa vírgula aparentemente fora de propósito.

Sinceramente, pensei a princípio em discorrer sobre o fato de que, em ambos os textos, o poeta teve a felicidade de, com poucos caracteres, provavelmente tocar cada uma das milhares de pessoas que passam por aquela esquina: a cada leitura, uma nova pequena história é atualizada: o elemento ela, no primeiro texto, por exemplo, me remete a uma determinada pessoa, mas certamente remeteu você a outra. Do mesmo modo, essa vírgula misteriosa do segundo poema faz todo o sentido se repararmos que, na verdade, é precisamente esse sinal gráfico que abre o campo de possibilidades para que cada leitor encontre um, digamos, fim para a história, por exemplo: Sinto muito por você, que fez seu filho chorar hoje de manhã; Sinto muito por você, que sente saudades de sua mãe etc. Pois bem, pensei em falar mais sobre essas virtudes linguísticas dos dois poemas, mas sei que a crônica ia cheirar a crítica literária, o que não me agradaria aqui.

Creio então que o que mais me enche os olhos nisso tudo é pensar que o coração da poesia certamente palpita com ações assim. Cidade grande, carros, asfalto, ônibus, buzinas, poluição, outdoor, placas de trânsito - e de repente um poema, nos lembrando que a vida há.


"A borboleta pousada
ou é Deus
ou é nada."
Adélia Prado

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Presença

Para que serve ficar longe de alguém que se ama?

Serve pra medir a força do laço, a medida do querer.

Reconhecer-se na ausência ou, mais que isso, perceber que ausência e presença se encontram e se diluem numa só palavra, existência.

Talvez sirva pra isso, afinal, ver-se obrigado a estar longe: redescobrir que a pessoa existe. Existe num lado vazio da cama, numa música, em cada lembrança que vai se reavivando, memória colorindo-se uma vez mais.

Te amo.

(À Jessica)

sábado, 30 de maio de 2015

Mediocremente

Sentou-se à mesa certo de que havia algo necessário a dizer. Era escritor, de pouco talento é verdade, mas naquele dia não foi o ofício que o impeliu à folha em branco. 

Conhecia bem a sensação, embora ela não lhe ocorresse com frequência. Era uma tristeza plácida, lenta como o mundo há de ter sido um dia, uma ideia vaga mas segura de que o mundo é ruim, mas não acaba. Tristeza feito goteira num balde: bate, demora... bate, demora... O balde se dá à vista, porém quem o imagina pleno?

Pôs uma música a tocar. Era mesmo a velha sensação que o punha a redigir: bastaram os primeiros acordes e as lágrimas, como que harmonizadas com a cena que ali se desenhava, desceram sem apuro, duas ou três. 

Coceira na mente. A expressão não era sua, claro, lera em algum livro certa vez. Escritor medíocre. Um engodo na garganta, empenhava-se em dar-lhe substância, em conferir-lhe um conteúdo menos nebuloso, buscava uma metáfora de efeito, um resto de latim que lhe servisse, dicionários, anotações em velhos cadernos adolescentes, teorias consagradas: por um momento, tresvia o mundo, mas logo o perdia.

Aborrecido, desistia, era sempre assim. Mais uma música, já sem lágrimas. Mais uma busca, mas esta já certa de que resultaria vã. Mediocremente, apagam-se as luzes.



"Desde minha fuga, era calando minha revolta (tinha contundência o meu silêncio! tinha textura a minha raiva!) que eu, a cada passo, me distanciava lá da fazenda, e se acaso distraído eu perguntasse 'para onde estamos indo?' - não importava que eu, erguendo os olhos, alcançasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rigoroso, desprovido de qualquer dúvida: 'estamos indo sempre para casa'."
Raduan Nassar

terça-feira, 7 de abril de 2015

Amor

Se você tivesse de escolher uma cena, apenas uma cena que expressasse a ideia que faz de amor - aliás, para não corrermos o risco de escorregar nesta palavra, tão usada e por isso mesmo esvaziada: se tivesse de escolher uma cena que concretizasse ao máximo o querer-bem-a-alguém, o querer-estar-bem-de-junto-de-alguém, o querer-que-alguém-seja-feliz, que quadro criaria?

Nos últimos tempos essa ideia ficou como que me circundando, me perscrutando, esperando ser atendido no consultório médico e lá estava eu, que imagem traduziria esse sentimento? Professor discursando em sala e eu, que cena, que cena, que cena?

Eis que a resposta, a imagem - a qual, como certa vez disse Murilo Mendes em ensinamento a João Cabral de Melo Neto, é mais importante que a ideia, daí talvez minha fixação em encontrar a tal cena - me veio exatamente de quem já havia despertado a minha procura.

Ela dormia. Creio que há não muito tempo, mas tempo já suficiente para parecer esquecida do mundo, dado o quase-sorriso (ou isso já foi minha subjetividade criando uma realidade?, creio que não) que lhe nascia no rosto. Não sei em que pensava ou com que sonhava, se é que o fazia, não vou fabular a respeito. Tudo o que aqui afirmo é o que ali percebi: que o amor há, essa fagulha de tempo em que o mundo nos parece tão bonito e equilibrado, eterno, enfim.

Talvez por estares de certa maneira fora do mundo, talvez por eu poder te mirar sem que tu me visses te vendo (o que nesse caso te levaria a crer que eu queria algo de ti, quando na verdade tudo o que eu queria era te ver...), talvez por pareceres sorrir, talvez por eu não ter ideia daquilo em que pensavas e portanto naquele momento não te conhecer, talvez, talvez, talvez - o certo é que ali me dei conta. Da imagem que buscava? Sim, também da imagem, mas, sobretudo: que o amor há, mais nada.

(À Jessica)


"Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente - o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."
Guimarães Rosa

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Por que escrever

Faz muito tempo que não escrevo com frequência, quase me assustei, agora, quando me dei conta de que já ia quase a completar um ano da última vez que me pus a escrever. Em todo o ano passado, somente por duas vezes segui esse ritual da folha em branco, do silêncio, do esvaziamento lento que me abre uma fresta, sim, uma fresta pela qual eu vejo. Um lugar, uma pessoa, uma lembrança? 

Sim, em parte. Na sede de acalmar nossa cabecinha que tudo quer estabilizar, agarrar, nomear e que portanto não se conformaria, pondo os olhos pela fenda, em enxergar um mundo de coisas sem nome, acabo por ver lugares, pessoas, lembranças. Mas o que há mesmo, quando ponho os olhos pela fresta, sei que é um pedacinho de mim, e o resto  pessoas, lugares, lembranças  fica ali apenas rebuçando esse pedaço meu muito íntimo, que nem sei que forma tem.

Nessas semanas meu amigo Lúcio me sugeriu que eu voltasse a escrever. Aceitei a sugestão e pra falar a verdade eu também já vinha há tempos me cobrando esse retorno, mas a imposição, o dever-escrever, danado, não vinha. Adélia Prado, poeta brasileira, passou alguns anos entre a publicação de um livro seu de poesia e outro, o que pareceu estranho a alguém que, como ela, já vinha escrevendo versos com periodicidade. Questionada a respeito desse estranho hiato entre as duas obras, ela respondeu, não sei se com estas palavras, que a escrita não a tinha chamado. Bingo, Adélia.

Porque escrever, pra mim, gostaria que não fosse assim e óbvio que não é assim pra todo mundo, também carece desse chamado, desse caráter meio impositivo. Do contrário, perco uma cor, um traço, uma letra. Não vejo pela fresta, só finjo que vejo. O resultado é que, quando me ponho a redigir sem esse ter-que-escrever, me sinto tal qual o sujeito  todos nós na maior parte do tempo?  que, no trajeto do trabalho para casa, não percebe que a única coisa que realmente valeu a pena no dia foi aquele instante, uma faísca de tempo em que seu olhar cruzou com o de uma mulher desconhecida parada na rua e ele julgou vê-la sorrir antes que nunca mais se vissem.

Que quero dizer com isso? Que para mim a vida, assim como a escrita, só vale a pena mesmo nesses lapsos, nesses descuidos de espaço-tempo: primeiro cheiro do café fresco, toque na pele da primeira gota de chuva que vem vindo, corte fino da faca no dedo que apenas amparava uma cebola. Vida e escrita gritam por esses momentos de saliência, de descontinuidade, poesia em primeira instância. Faltou-me esse impulso nos últimos tempos para a escrita. Que não nos falte para a vida.

"Sentimento que não espairo; pois eu mesmo nem acerto com o mote disso  o que queria e o que não queria, estória sem final. O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito  por coragem. Será? Era o que eu às vezes achava. Ao clarear do dia." Guimarães Rosa

terça-feira, 13 de maio de 2014

Uma plantinha

Era coisa de umas nove da noite quando minha me ligou perguntando se eu poderia acompanhá-la no velório de um amigo seu, falecido há pouco. Quem é, mãe? Waldir, Waldir Leite. Claro que eu o conhecia, como não lembrar daquele senhor que cultivava e manipulava plantinhas, ele que, prestando serviços ao shopping em que minha mãe trabalha há décadas, vivia por lá, sempre de bermuda e chinelo? Minhas maiores lembranças dele vêm de minha infância, quando vez por outra eu ia à sala de minha mãe e de repente, em meio àquele mundo de gente trajada como manda o cânon de uma grande empresa, aparecia aquele senhor simpático, puxando conversa, meio indiferente ao ambiente business que o circundava. Eu era criança e claro que na época não formulava nesses moldes a imagem dele. Na minha cabecinha, ele devia ser um cara legal.

Pois fui acompanhando minha mãe, que não sabia bem onde era a casa dele. Sim, eu disse a casa, porque esse fora o local que, antes de partir, ele escolhera para seu velório. Nada de ambientes clean em empresas do ramo, com quadros intencionalmente discretos, pisos caros mas que não dão na vista e uma garrafa de café ali ao lado, quente, mas alheio. Não. Estávamos na casa dele. Linda, espaçosa como ele, com plantinhas, plantões e eu, que nem o conhecia bem, me senti mais perto daquele senhor de bermuda e chinelo. 

O corpo foi posto lá e quando, depois de algum tempo, me aproximei para ver-lhe a última aparência, enchi os olhos d'água, mas não exatamente triste: ele estava de camisa de algodão branca, boné e chinelo, como gostava andar por aí. Também fora pedido do próprio senhor Waldir, e estou quase chegando ao ponto desta crônica, que não fala de morte e nem se quer triste, não senhor. 

Por fim, duas pessoas começaram a trazer dezenas de plantinhas, cada uma em seu vasinho, areia molhada. O senhor Waldir mesmo quem plantou quando ainda tava podendo, disse que era pra cada um que viesse levar uma plantinha, e que elas não gostam de muita água, não. 

Tudo aquilo me tocou, aquele senhor simpático sabia das coisas: afinal, não é bonito demais pensar sobre como queremos o nosso último contato com os que vão ficar por aqui mais algum tempo? Em que lugar, que cores, que cheiros, que sensações eu quero que levem de mim? Que lembrança (uma plantinha, deus, que lindo...) você quer dar a quem vai ficar aqui tocando a vida adiante?

Até outro dia a plantinha que levei (ou melhor, com que ele me presenteou) estava aqui. Vez por outra eu lhe botava um pouco d'água, mas só um pouco, porque logo via aquele senhor de bermuda e chinelo me alertando que ela carecia de pouquinho só.


 "Agora a música já não a libertava, não a impedia de pensar. Dançava dividida, uma parte dela no que fazia, a outra vendo-a fazer." 
(Pepetela)

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A manga

Não costumo acompanhar o noticiário, prefiro não crer que o mundo seja aquele amontoado de infortúnios que eles insistem em proclamar. Não vou me alongar para justificar essa posição aparentemente a favor da ignorância ou da insensibilidade porque já falei disso outras vezes, aludindo sempre ao velho Braga e à sua crônica Os jornais. É bom quando alguém fala com admirável competência o que você gostaria de ter dito.

Ontem, porém, para extirpar da casa o silêncio que já começava a me incomodar, liguei a tevê e, enquanto preparava  ou melhor, tendo em vista a minha pouca habilidade gastronômica, adaptava – o jantar, ouvi da cozinha a notícia que animou esta crônica: aqui perto de casa, num cruzamento de grande movimentação comercial e em plena luz do dia, um homem morreu eletrocutado ao tentar tirar uma manga de um pé que estava situado dentro do terreno de um banco. É isso mesmo: havia um estabelecimento bancário, um muro com cerca elétrica, uma mangueira provavelmente com alguns galhos que apontavam para a rua, um homem... e uma manga. Não sei muitos outros detalhes: a notícia foi informada rapidamente, como tinha de ser(?): afinal, era só um homem, era só uma manga.

Nem ouvi mais o restante do telejornal, ainda que a tevê tenha continuado ligada. Entrei num daqueles momentos em que às vezes nos vemos: há uma voz que fala, que nos é dirigida, mas da qual só escutamos a dimensão mais concreta, como quem ouve uma língua desconhecida. O som, nesses casos, morre em si, falece tal qual veio ao mundo: mero ruído, não ganha vida de fato, seja porque não conhecemos a língua que preside àqueles sons, seja porque, como no meu caso, nossa mente deixa de lhe dar atenção. 

Enquanto terminava de preparar o jantar e ainda algumas vezes durante o dia de hoje, fiquei cá adivinhando os pensamentos travessos que certamente invadiram a cabeça do homem momentos antes de iniciar sua empreitada em busca da tal fruta. Como isto é apenas uma crônica sem pretensão nenhuma de verdade, gosto desta versão: Francisco (porque um homem capaz de estagnar sua rotina em busca de uma manga deve ter nome simples e honrado) vinha caminhando pela rua, lembrando todos os afazeres que sua esposa lhe incumbiu e os quais deveria cumprir antes de retornar a casa, quando avistou uma manga. Solitária, presa ainda a uma mangueira grande e imponente, cujos galhos mais altos sorriam para a rua, ela fez Francisco lembrar sua infância no interior do estado, quando roubava, por pura e perdoável traquinice, as mangas do vizinho. Lembrou-se do gosto travoso, de como se lambusava com as mangas alheias e ria com seus amigos de então (onde estarão?). Recordou o doce que elas possuíam e os fiapos que enganchavam em seus dentes depois da aventura. 

Olhou para o relógio, calculou o quanto se atrasaria se topasse a captura da fruta, a consequente advertência que levaria da esposa devido ao atraso (ela perdoaria fácil, bastava dividir com ela, que afinal também adorava manga...), cálculo vai, cálculo vem, e lá estava Francisco em busca de algo que o auxiliasse na empreitada. 

Encontrou ali por perto um pedaço um tanto longo de ferro. Em outros tempos, lembrou-se, arranjavam varas de madeira, ele e seus amigos. Que diferença faz, senão o peso?

Paro meu relato por aqui, paro onde Francisco foi feliz. 

Mas ainda consigo conjecturar: quando foram noticiar a fatalidade à sua esposa e disseram-lhe que ele morrera tentando pegar uma manga na rua, ela chorou, chorou, chorou, até que os olhos cansaram e, sorrindo aquele sorriso discreto e triste, pensou: acho que ele ia trazer pra mim...


Frase do dia:
"Pôr em dia. Que raio de expressão! Fazer. Fazer algo, fazer o bem, fazer xixi, fazer hora: a ação em todas as suas complicações. Contudo, por trás de toda e qualquer ação, havia sempre um protesto, pois todo fazer significa sair de para chegar a, ou mover algo para que ficasse aqui e não ali, ou entrar numa determinada casa em vez de entrar ou não entrar na casa ao lado, o que significava que em qualquer ato havia sempre a confissão de uma falha, de algo ainda não feito e que era possível fazer, o protesto tácito diante da contínua evidência da falha, da mesmice, da imbecilidade do presente." 
Julio Cortázar

domingo, 6 de outubro de 2013

Da vida que cria faltas ou das faltas que criam a vida

Algumas poucas leituras teóricas sobre o assunto, outros tantos momentos observando as pessoas com que convivo e um olhar que, às vezes espinhosamente, forço que se volte pra dentro, pro eu: eis as razões do que me faz cada vez mais nos últimos tempos concluir – somos todos movidos pela falta. É a falta que nos move, a mim, a você, ao seu vizinho, ao motorista do ônibus.

Mas falta do quê, alguém há de perguntar. De dinheiro, de amor, de saúde, de paz? Ou, mais concretamente, de uma casa própria, de um emprego que satisfaça, de um celular de última geração? Sim, todas são possibilidades, mas não precisamos estabelecê-las nesse momento, aliás é até melhor que não as especifiquemos agora: são muitas as faltas, muitas as gentes e, em cada gente, quantas faltas? Não entremos nesse mérito, atentemos apenas para um fato: há uma casa vazia em cada um de nós.

E é exatamente essa lacuna que nos faz agir, mover, buscar: é assim que de repente vejo que a vida, sob determinado ponto de vista, nada mais é do que um espetáculo, como uma grande peça teatral. Sou um indivíduo, você outro, e cada um de nós, buscando sanar nossas faltas, dá vida a esse espetáculo. Ou, se preferir, cada um de nós, nesse intento de preencher a tal lacuna, ganha vida – faz a vida ganhar sentido. Dessa forma, é a falta que nos confere algum sentido à vida.

Mas... E quando sanamos a falta? Ora, nesse caso você estaria pensando nela como uma casa preenchida: se preciso de um determinado emprego e consigo o tal emprego, terei sanado uma falta. Surgirão outras, que novamente nos lançarão no palco da vida, que nos conferirão sentido à vida. Então insisto: pensemos nela como uma lacuna, como uma relação entre você e algo que lhe falta, palpável ou não, inteligível ou não, necessário ou não.

E isso me inquieta: se tenho tanto além do que julgo necessário, se sou tão mais privilegiado do que maior parte do mundo, se tenho, portanto, sanado tudo aquilo o que considero de fato necessário, por que ainda assim sou um sujeito em falta? Sou levado a concluir quase de imediato que isso é puro egoísmo, mesquinhez de minha parte. Mas pensar assim seria reduzir a questão, uma vez que, embora me sinta, sim, egoísta ao ver uma lacuna onde não deveria ver,  é através dela que me assinalo como sujeito do mundo, como sujeito que age no mundo.

Traço meia dúzia de objetivos, cumpro-os na esperança de poder me satisfazer, me contentar, me dizer basta. Não me realizo, não nos realizamos. Nunca? Acho que nunca. Quem sabe se naquele momento derradeiro em torno do qual criamos certo misticismo, falo do momento da morte, pois sim, alguns dizem que ali há um instante de plena lucidez, um vislumbre. Talvez valha acreditar: a realização plena embora súbita, surgindo como recompensa por uma vida de faltas. Ou mais: por uma vida que só é na medida em que falta.


Frase do dia:
"Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas."
Guimarães Rosa

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Nosso descompassado ser

Dizem que sou uma pessoa calma, serena, pacífica, e acabo por não ter como negar: de fato, pareço calmo, sereno, pacífico. Esse é o meu parecer. Se falo, costumo procurar as palavras mais moderadas, menos agressivas, fujo dos olhares agudos, das exclamações cheias de vida, das opiniões mais radicais. Opto quase sempre por caminhos que tenham uma cor morta  bege?  equilibrada e contida. De tanto parecer assim, as pessoas acabam por não ter dúvidas: olha lá o bege passando.

Mas as pessoas, que culpa elas têm, afinal? Como poderiam inferir outro conceito de mim senão esse? Se elas só têm acesso, ou melhor, se eu só lhes dou acesso a essa parcela de minha realidade, como posso eu me queixar de ser isso a seus olhos? Ora, a nossa essência é uma instância para sempre perdida e nós, queiramos ou  não, acabamos sendo apenas aquilo que... parecemos ser. Que me entendam: quando digo que somos aquilo que parecemos ser, não me refiro apenas às roupas que vestimos e afins. Refiro-me também, e sobretudo, às frases que enunciamos, à maneira como olhamos o outro, à forma como andamos ou deixamos de andar. Como diz Saramago no filme José e Pilar, "[....] tudo o que fazemos é autobiografia, [...] a vida de cada um de nós a estamos contando em tudo quanto fazemos e dizemos." Ou seja, a vida de cada um de nós, o nosso ser, nós estamos construindo-o a todo momento. Foi Valéry quem disse, não sei mais se exatamente com estas palavras, que é a caminhada que faz o caminhante, e não o contrário. Portanto, somos essa eterna construção, dirão os mais otimistas, somos essa eterna incompletude, bradarão os mais pessimistas.

Seja como for, o certo é que nos últimos tempos venho sentindo mais latente esse descompasso entre minha  aparência e o que estou a afirmar como minha essência, entre o que pareço e o que estou dizendo que sou. E a escrita, aliás, me é mais uma vez uma possibilidade de me apresentar pelo avesso, sob lentes de aumento.

O Lucas é calmo, mesmo quando meu espírito se dilacera em agonia. O Lucas é pacífico, mesmo quando sou guerra e sangue. É mansidão, quando sou revolta. É razão, sou paixão. É candura, sou só sexo. É reticência... sou exclamação!


Frase do dia:
"Ver é a permissão para não pensar a coisa, já que a vemos."
Merleau-Ponty