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Cheiro de mar

Já sentado, sozinho, na sala de embarque do aeroporto, parecia controlado o momento de despedida vivido há pouco. Mão esquerda procura o queixo, polegar desliza pelo pescoço, indicador repousa sob as narinas: me surpreende um cheiro de mar por debaixo de minha unha.
A cena é de ontem, quando retornava para São Paulo — cidade que, entre tantas maravilhas, não tem o mar em que eu me banhara no dia anterior e que persistia no único espacinho em que ele podia mesmo se conservar — apregado entre carne e unha.
Mas não é da presença ou ausência de água salgada margeando uma cidade que trato aqui, não me interessam essas superficialidades que distinguem duas cidades, quaisquer que sejam elas. O que me impeliu, nesta noite, depois de alguns anos, a novamente me verbalizar — "morreria, se lhe fosse vedado escrever?", era a pergunta de Rilke, indagação precisa de quem vê na escrita uma maneira, talvez única, de conferir alguma forma estável, imperfeita decerto, a seus anseios... — n…

Uma despedida

Vida nas esquinas

Ainda há sensibilidade e esperança sendo plantada em várias esquinas de Fortaleza. Não sei quem teve a ideia, quem a executa, se são ações de um grupo ou manifestações de um poeta solitário, desconheço enfim a procedência do movimento, ignorância que fiz questão de manter. Não pus no Google "mensagens nos semáforos de Fortaleza" ou algo do gênero. Em casos assim, creio haver mais beleza na dúvida, afinal sempre um ponto de abertura para nosso imaginário, do que na convicção, para o bem e para o mal sempre um ponto de fechamento das possibilidades. 
Refiro-me aos pequenos poemas estampados em várias esquinas da cidade, sempre perto de algum semáforo: estratégia aliás inteligente na medida em que capta a atenção de todos aqueles que aguardam o surgimento da cor verde para seguir seus caminhos. 
Lembro-me apenas de dois desses poemas. Um deles nos presenteia assim: Sinal fechou? Lembra do cheiro dela. E o outro: Sinto muito por você, . Assim mesmo, sem assinatura em ambos e, n…

Presença

Para que serve ficar longe de alguém que se ama?

Serve pra medir a força do laço, a medida do querer.

Reconhecer-se na ausência ou, mais que isso, perceber que ausência e presença se encontram e se diluem numa só palavra, existência.

Talvez sirva pra isso, afinal, ver-se obrigado a estar longe: redescobrir que a pessoa existe. Existe num lado vazio da cama, numa música, em cada lembrança que vai se reavivando, memória colorindo-se uma vez mais.

Te amo.

(À Jessica)

Mediocremente

Sentou-se à mesa certo de que havia algo necessário a dizer. Era escritor, de pouco talento é verdade, mas naquele dia não foi o ofício que o impeliu à folha em branco. 

Conhecia bem a sensação, embora ela não lhe ocorresse com frequência. Era uma tristeza plácida, lenta como o mundo há de ter sido um dia, uma ideia vaga mas segura de que o mundo é ruim, mas não acaba. Tristeza feito goteira num balde: bate, demora... bate, demora... O balde se dá à vista, porém quem o imagina pleno?
Pôs uma música a tocar. Era mesmo a velha sensação que o punha a redigir: bastaram os primeiros acordes e as lágrimas, como que harmonizadas com a cena que ali se desenhava, desceram sem apuro, duas ou três. 
Coceira na mente. A expressão não era sua, claro, lera em algum livro certa vez. Escritor medíocre. Um engodo na garganta, empenhava-se em dar-lhe substância, em conferir-lhe um conteúdo menos nebuloso, buscava uma metáfora de efeito, um resto de latim que lhe servisse, dicionários, anotações em velh…

Amor

Se você tivesse de escolher uma cena, apenas uma cena que expressasse a ideia que faz de amor - aliás, para não corrermos o risco de escorregar nesta palavra, tão usada e por isso mesmo esvaziada: se tivesse de escolher uma cena que concretizasse ao máximo o querer-bem-a-alguém, o querer-estar-bem-de-junto-de-alguém, o querer-que-alguém-seja-feliz, que quadro criaria?
Nos últimos tempos essa ideia ficou como que me circundando, me perscrutando, esperando ser atendido no consultório médico e lá estava eu, que imagem traduziria esse sentimento? Professor discursando em sala e eu, que cena, que cena, que cena?
Eis que a resposta, a imagem - a qual, como certa vez disse Murilo Mendes em ensinamento a João Cabral de Melo Neto, é mais importante que a ideia, daí talvez minha fixação em encontrar a tal cena - me veio exatamente de quem já havia despertado a minha procura.
Ela dormia. Creio que há não muito tempo, mas tempo já suficiente para parecer esquecida do mundo, dado o quase-sorriso …