Postagens

Substantivo manso

Imagem
Amor é substantivo manso, é oceano azul num domingo preguiçoso e tardio. Amar alguém não tem odor forte de perfume importado – o amor, se debruçado for, tem cheiro puro de banho recém-tomado, ou de lavanda suave, discreta e boa. O amor não é vermelho como dizem, aliás que pecado pintá-lo de tão gritante, urrante cor. O amor... que cor tem o amor? Pode ser bege ou azul clarinho, feito céu de antigamente. Talvez marrom amadeirado forte, a lembrar móvel pesado e antigo de casa de vó, assim confortando o olhar. Mas vermelho, não. Também não gosta de música alta, mesmo que nela se afirme contundentemente eu te amo, eu te amo, meu amor. Aliás, quanto mais alta e incontestável a canção, mais dela duvida o danado do amor. Por outro lado, alteia o silvo do vento, o cantar dos pássaros, o ranger compassado da rede que balança na varanda – e aí terás o amor em forma de som. Assim, é difícil escutá-lo em meio ao caos da cidade grande: quanto mais carros menos amor, quanto mais prédios...

Um lápis

Imagem
Foi numa dessas tardes amenas, céu azul aberto quase sem nuvens, sol brando que em nada incomodava, antes suavizava – era um dia assim, como outro qualquer. Um dia tão bobo, que me dei conta de que precisava comprar um lápis, se é que ainda há lápis neste mundo moderno repleto de notebooks , iphones , ipads e outras parafernálias que felizmente desconheço: um mundo que já não nos permite ver a letra do outro, um mundo para o qual temos todos a mesma caligrafia, fria e imparcial. Como esta com que escrevo agora. Aos poucos, durante aquela tarde serena que certamente me deixou mais sensível, fui sendo tomado por uma vontade tola: eu queria comprar um lápis. Já não seria feliz enquanto não me apossasse desse objeto simples, de vida pacata mas espírito radiante: em meio a nós que o ignoramos, um lápis ainda é capaz de projetar os sonhos mais lindos, e essa possibilidade de repente me encheu a alma, eu precisava de um lápis urgentemente, queria naquela tarde escrever um mundo novo...

Para trazer um pedacinho de si

Imagem
Que de mais importante se traz de uma viagem para onde se partiu sozinho, rumo a lugares até então desconhecidos? Fotos, presentes, um pouco de conhecimento da cultura local? Penso que não. Faz umas duas semanas que voltei de mais um solitário mochilão por aí: pelo novo, pelo desconhecido. Ao retornar, naturalmente as pessoas mais próximas e que ficaram sabendo de minha última empreitada me indagaram como foi a viagem. Sei que sou muitas vezes excessivamente tímido e inseguro pra falar, mas senti que em relação a essa pergunta, por mais bem articulado que fosse, jamais conseguiria transmitir com precisão a vastidão de sentimentos aparentemente bobos que nos invadem quando passamos algum tempo, pouquinho que seja, longe de casa, de nossa cama, de nossos cheiros. Longe de nós mesmos, afinal. Assim, senti que em nenhum momento soube responder uma pergunta tão simples: como foi a viagem? Pois como explicar que a melhor lembrança que tenho de determinada cidade é o olhar sorridente...

O peso sobre nossos ombros

Imagem
Espero não ser mal entendido com o que vou dizer. O tema é delicado, danado pra dar polêmica, de modo que vou tentar ser mais cuidadoso com as palavras. De um mês pra cá, com a partida de minha avó paterna, fui a três missas (uma no dia do sepultamento, uma a que chamamos de sétimo dia e outra contado um mês de seu falecimento), um recorde que não batia desde os tempos de criança, quando eu ainda não era, como talvez digam os mais fiéis mais inveterados, um caso perdido, e acompanhava minha mãe todos os domingos em suas idas a esse tipo de cerimônia. Pois nessas três recentes ocasiões me chamou atenção como durante uma missa somos levados a concordar com a ideia de que somos muito, mas muito pecadores. E aqui vem minha primeira ressalva: não estou aqui com intuito de criticar a igreja católica ou qualquer outra que seja, tampouco de reivindicar que as religiões modifiquem suas concepções, longe de mim tal proposição. As religiões e suas respectivas doutrinas estão aí, cada qu...

Julgamento

Imagem
Vez por outra me parece que o homem, enquanto espécie quero dizer, acabou por tomar um rumo disparatado, ilógico, estúpido mesmo, o que pra mim na verdade não teria nenhum problema – desde que esse tal rumo fosse reconhecido por nós exatamente assim: disparatado, ilógico, estúpido. Desde que reconhecêssemos em nós o equívoco em que nos metemos. Mas muitas vezes não é assim que sucede, e nós continuamos evitando nos olhar no espelho, nos esquivando de cutucar nossas feridas, de questionar que diabos de espécie, ou de sociedade, ou de vida, chame-se lá como for, foi esta que (des)construímos. Já cansei de escrever, o que dirá de pensar, sobre isto. Mas, se até García Márquez certa vez falou – não lembro onde, mas acreditem, ele disse mesmo – que um escritor só escreve um livro na vida, os outros são somente variações deste que é o principal, se até ele disse isso, num tom provocador é claro, me sinto mais à vontade pra abordar este meu tema que é o mesmo, se mudo as palavras aqui...

Sutil, em benefício dela

Poucas vezes em minha ainda curta vida vi um ato tão amoroso. Sutil, discreto, para muitos uma banalidade que pouco ou nada significou, mas a mim pouco importa: eu gosto das banalidades, o essencial da vida reside mesmo é lá – no banal, no sutil. Imagine: sua mãe vive os últimos dias de vida, não há mais como lutar contra uma doença mesquinha que, hora a hora, dia a dia, suga dela um tantinho mais de sua força. Não, ela não está num leito de hospital: a família, num ato louvável de humanidade e ciente de que não havia mais o que fazer, poupou-a das paredes brancas  e dos olhares cientificamente indiferentes de médicos especializados. Assim, ela estava em sua cama e certamente feliz com isso, porque, quando não há mais remédio que nos chegue, é a ela que recorremos como último medicamento, ou talvez, repensando a sentença, talvez ela seja o primeiro, e não derradeiro, remédio que sempre buscamos. Vendo assim que sua mãe...

Ela se foi

Imagem
Eis um pecado da natureza: fazer que os cachorros vivam menos que os homens. Ou melhor, até: fazer que os bichos de estimação quase todos tenham vida tão curta a ponto de normalmente partirem antes que seus donos. Vejamos se não há aqui uma incoerência: vemos um ser nascer, damos-lhe um nome, colocamo-la nos braços, educamo-la de modo que ela aprenda a fazer silêncio quando necessário e a tratar sempre bem as visitas que lhe afagam a cabeça – e, quando completa 15 aninhos de vida (uma criança, um futuro inteiro pela frente...), taxamo-la de velha e nos preparamos conformados para sua morte que se avizinha. A natureza, esta mesma que dizem justa e defensora do equilíbrio, regeu sem preocupação dois destinos e fez uma mãe enterrar uma filha – não há nada de errado nisso? Não, não era tua hora ainda, Tequila, querida nossa. Tu já eras peça importante, que em nada destoava (antes consonantava...) dentro do sítio Jucurutu. Há quem diga, eu inclusive, que já estavas a sofrer...